Carta ao leitor

•dezembro 5, 2008 • 3 Comentários

Por Unidos pela fé

A sabedoria popular nos ensina que há três assuntos que afetam a vida da sociedade cuja discussão é melhor evitar: política, religião e futebol. Tais temas costumam alterar os ânimos das pessoas e, quase sempre, causam brigas homéricas. Nesse tipo de debate todos se acham donos da verdade e ninguém abre mão de suas posições. Falar de algo que oferece consolo para alguns e não passa de instrumento de manipulação para outros é como pisar num terreno repleto de minas prontas para explodir.

Alguns debates, no entanto, têm um fim. As questões levantadas mexem com os sentimentos e valores de todos nós e, por isso mesmo, quase ninguém consegue fugir delas. O jornalismo, obviamente, não está imune ao fenômeno. E é por isso que nos reunimos neste blog para analisar a cobertura de temas religiosos nos veículos de comunicação impressa mais importantes do país, a saber: os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e a revista Veja.

Quatro meses após o surgimento do Unidos pela fé, 35 posts foram publicados e mais de três mil visualizações ocorreram. Desse trabalho, pudemos constatar que a imprensa brasileira é, muitas vezes, preconceituosa ao tratar de religião e que há muito a ser melhorado na cobertura desses assuntos.

Podemos resumir as hipóteses que nortearam nossas críticas ao longo deste semestre em dois pontos:

a) se há um tratamento privilegiado para o catolicismo, religião com maior número de seguidores no Brasil;

b) em que medida o discurso sobre as religiões e a religiosidade, publicados nos veículos estudados, embute e propaga, explícita ou implicitamente, alinhamentos favoráveis ou desfavoráveis a esta ou aquela confissão.

A partir disso, foi possível colocar em discussão as estratégias discursivas utilizadas pelos jornalistas brasileiros num contexto em que o país está mais religioso, como mostrou estudo divulgado em maio de 2007 pelo Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) sobre a economia das religiões1 a partir do processamento de micro-dados produzidos pelo IBGE (2000 a 2003).

O trabalho da FGV apontou que pela primeira vez em mais de um século a proporção de católicos no Brasil parou de cair, mantendo-se estável no primeiro quarto de década com 73,79% em 2003. Já os evangélicos continuaram crescendo, passando de 16,2% em 2000 para 17,9% em 2003.

A novidade é que os sem religião – que passaram de 7,4% para 5,1% – estão se tornando evangélicos.

Diante desse fenômeno, nós, do Unidos pela fé, tentamos a todo momento mapear os vieses presentes na cobertura de temas vinculados à religião.

Esperamos que o blog tenha contribuído para tal reflexão que pretendemos estender ao longo do ano de 2009. Abaixo, o leitor poderá encontrar uma síntese da experiência de cada blogueiro do Unidos pela fé.

Jornal O Globo

Por André Eler, o protestante calvinista neoliberal

O Globo é o carioca do grupo de veículos analisados – talvez pelo calor, pela falta da rigidez que há em São Paulo, ele me pareça o mais brasileiro de todos. Isso pode parecer irrelevante, mas se reflete na produção jornalística do jornal. Ele tem editorias que não fazem muita questão de distinguir os assuntos de política dos de cotidiano, tem colunas que misturam social, economia e política, tem um caderno de esportes que toca em todos os temas, um caderno de cultura eclético.

A religião se espalha sobre todas as páginas do Globo. Mas ela é citada entre um acidente de carro, uma festa de famosos, uma passeata pela paz, uma campanha eleitoral. O Globo não aborda o tema religião descolado do resto da vida pública. E, paradoxalmente, abomina que a religião exista como força política, que interfira nas diversas instâncias da vida pública. A religião é uma conquista dentre as liberdades individuais e deve permanecer nesse plano.

Ela serve como contexto, como anedota, como uma forma de humanizar a matéria. A religião do Globo está no cotidiano, ela é profana. Ela aceita o semelhante, sem levantar a tese de que algum ponto de vista esteja errado. A religião deve ser tolerante e tolerada. Banalizada, até. Mas a fé de ninguém pode ser tomada como verdade absoluta. Por isso mesmo, a fé de ninguém é contestada.

O Globo reforça alguns dos mesmos preconceitos dos demais veículos. Mas faz questão de reforçar mesmo o script de que o brasileiro é bom, múltiplo, vário, tolerante – quase carioca. E assim, nem ele, nem os políticos, e muito menos as religiões devem ser levados muito a sério. Isso não impede reflexões acerca de qual deve ser a posição do leitor. Muito pelo contrário: já que não dá para levar ninguém a sério, critiquemos tudo e cobremos uma postura de respeito com o que é público (e múltiplo, e vário).

Quem lê O Globo, não deve levar nem O Globo a sério. Afinal, ele é carioca.

Jornal Folha de S. Paulo

Por Eliseu Barreira Junior, o agnóstico que traz no peito a estrela de Davi

O maior jornal do País. Esse é o epíteto da Folha de S. Paulo. A publicação paulista, como todo mundo já deve estar cansado de saber, em seu “Manual de Redação” assinala como seu mais importante princípio editorial a defesa do pluralismo de idéias e opiniões. Por isso, todas as tendências ideológicas expressivas da sociedade devem estar presentes nas páginas do jornal. A busca pela apresentação da diversidade religiosa e a defesa da multiplicidade de cultos e credos são metas que a Folha deseja seguir.

Entretanto, ao longo do meu trabalho de crítico do jornal – uma espécie de ombudsman dos temas religiosos tratados nos últimos sete meses – pude constatar que esse paradigma nem sempre é verdadeiro. Há deficiências, principalmente, quando o assunto são os evangélicos – algo que acredito ser procedente da disputa judicial entre a Folha e a igreja Universal do Reino de Deus e da idéia difundida na sociedade brasileira de que eles são charlatões e só estão interessados no dízimo dos fiéis.

A atividade de criticar o trabalho dos outros não é fácil. Controlar nossos sentimentos ao analisar o texto de alguém e ser, ao mesmo tempo, objetivo é uma tarefa um pouco ingrata. Em muitos momentos, me questionava quem eu achava que era para falar mal do texto dos outros. Em virtude disso, tentei ao máximo trabalhar com referenciais teóricos para mostrar se os discursos que me propus a estudar eram bons ou ruins.

Espero que tenha desempenhado um bom papel enquanto crítico e que toda a experiência que obtive sirva de lição para quando eu estiver no lugar de quem eu critiquei. Assim, creio que poderei acertar mais e, portanto, errar muito menos do que os jornalistas com que me confrontei nos sete textos que escrevi neste semestre.

A análise do discurso é uma excelente ferramenta para quem pretende ser jornalista. Ela permite que os sentidos construídos por um texto sejam verificados e que este seja visto como um objeto de significação que se constrói na relação com os demais objetos culturais, pois está inserido em uma sociedade, em um dado momento histórico e é determinado por formações ideológicas específicas. Neste sentido, o jornalismo que tem a qualidade e o pluralismo como uma meta deve prestar mais atenção na importância desse tipo de estudo.

Um estudo que pretende contribuir para que as mensagens transmitidas pelos formadores de opinião não semeiem sentimentos e opiniões em campos tão controversos e polêmicos como o da religião.

Jornal O Estado de S. Paulo

Por Borbas, o ateu ‘graças a Deus’, e Rafael Benaque, o ateu ‘heavy metal’

Ter história é ótimo para a análise que o unidospelafe fez. O Estado de S. Paulo no decorrer de seus mais de 170 anos idos mostrou sua linha editorial: inicialmente, republicano e hoje conservador moralmente, liberal economicamente e católico. Se OESP tivesse um rosto, certamente seria baseado na genética dos Mesquita, que ainda traçam o grosso das características do jornal. E isso facilita muito o trabalho de análise do discurso.

Um jornal, quando se propõe a divulgar informações pelo filtro de determinada linha editorial, cria um globo de verdades – o jornalismo de modo geral tem a característica de gerar visões de mundo. E a visão de mundo gerada pelo Estadão passa por morais católicas.

É claro que, se um jornal traz um diário do Vaticano e tem como colunista fixo Dom Odilo Scherer, algo está implícito…ou talvez explícito!

OESP não fica, porém, recluso a sua fé; como um guerreiro nas Cruzadas, o jornal toma partido em criticar outras religiões, seja os freqüentadores da Barão de Sarzedas e dos vagões da CPTM, seja os moradores da Hezbollândia.

Jornalisticamente falando, é mais fácil para o leitor se deparar com um texto que é sabidamente parcial sobre determinados assuntos, uma vez que os exageros pulam aos olhos.

Resta ao unidospelafe esculhambar tudo.

1 A pesquisa completa está disponível em: http://www4.fgv.br/cps/simulador/site%5Freligioes2/. Acesso em 27.09.08.

Decifra-me ou te converto

•dezembro 5, 2008 • 3 Comentários

por Rafa Benaque

É fim de tarde em São Paulo e os trens da CPTM começam a ficar cheios de trabalhadores que só querem voltar pra casa. Porém, até nos trilhos do trem o caminho pode trazer surpresas: ambulantes, pedintes ou, quem sabe, pregadores evangélicos. Sim, parecidos com aqueles que cobram o dízimo na televisão, homens e mulheres (2 mil, para ser exato) se dividem pelos trens de todas as linhas da cidade para levar a palavra de Jesus aos “fracassados”, como eles mesmos gostam de dizer.

No dia 6 de julho, na capa do caderno Metrópole, O Estado de S. Paulo colocou a seguinte manchete: “Cruzada contra pregadores de trem” e, abaixo dela, uma foto de um grupo desses evangélicos tentando falar dentro de um vagão superlotado. O texto, único da primeira página (o restante é uma propaganda), conta que essa prática já é tradicional nos vagões da CPTM, mesmo infringindo as regras da empresa uma vez que, segundo o artigo 40 do regulamento de transportes ferroviários, são proibidas “atividades que venham a perturbar os usuários”. A matéria se estende dentro do caderno, ocupando quase uma página toda (divide espaço apenas com outro anúncio publicitário).

Estranhei a maneira como a introdução na capa foi colocada pois, em se tratando de O Estado de S. Paulo, jornal católico até o talo, espera-se agressividade contra todas as ações delituosas dos evangélicos e, apesar disso, o texto se mostrou neutro. Mas, a grande surpresa veio mesmo no interior do caderno. A matéria principal (“No vagão cheio, gritos de consolo a ‘fracassados’”) é absolutamente condescendente com os pregadores, chegando até a passar a idéia de que eles prestam um serviço social. Essa permissividade fica evidente quando o jornalista afirma que o coral dos evangélicos (sim, eles também cantam nos trens) é “capaz de tirar o fôlego de quem nunca presenciou a cena” ou quando conta a história de Paulo Marques, que teria se tornado evangélico com a “ajuda dos pregadores, depois de ter chegado à lona, viciado em cachaça, vivendo três anos nas ruas da Praça da Sé”.

Uma curiosidade: um trecho afirma que Claudio Benedito Costa, pregador de trem, “fala principalmente para os fracassados, perdedores, depressivos, que lotam os assentos da CPTM a caminho de casa”. Todos esses termos – fortes e pejorativos – não vieram entre aspas, o que mostra uma opinião do jornalista. Além disso, é uma forma de dizer que os passageiros dos trens precisariam das palavras dos evangélicos. Gostaria de saber dos quase 2 milhões de passageiros diários da CPTM, quantos são a favor da pregação já que, em 2007, a empresa recebeu 137 reclamações esse respeito… No entanto, algo me fez ficar confuso: em meio a essa matéria elogiosa, o jornalista chama a cantoria dos evangélicos de “algazarra”, o que poderia deixar transparecer um juízo negativo. Além disso, se a pregação fosse católica, talvez ela viesse na seção Vida&, sob o chapéu religião e não no caderno Metrópole, de notícias mais populares e policiais.

Mas o que predomina mesmo é uma defesa dos pregadores de trem. A retranca “Assaltou, ficou em coma e se converteu” conta como Ricardo Almeida da Silva foi “salvo” pelos evangélicos da CPTM. Depois de ter traficado drogas, assaltado e quase ter sido morto por policiais, teria se convertido, segundo o texto, nas “idas e vindas com os pregadores no trem para Suzano”.

Mas, como já era de se esperar, o contra-ataque veio. No domingo, dia 17 de agosto, saiu no caderno Aliás uma matéria sobre a Linha Diamante dos trens de São Paulo. Em meio a histórias de vendedores ambulantes e drogados, o texto fala sobre os evangélicos que, desrespeitando a lei, pregam nos trens. Porém a passagem é bem curta e, apesar de sarcástica, não é lá muito agressiva.

Essas matérias foram bastante surpreendentes para mim, já que o Estado sempre bate nos evangélicos quando tem oportunidade ou quando cria uma (sempre me lembro da segunda parte da “Fábula do sapo e do tucano – Parte 2, publicada no Caderno 2 dia 8 de agosto, na qual Arnaldo Jabor faz uma metáfora com a política nacional e diz que, em meio a “baixa bicharada da floresta” estão os “vermes evangélicos”). Talvez seja uma tentativa de se aproximar da rival Folha; talvez uma distensão no relacionamento com os evangélicos. Não sei. Difícil decifrar esse enigma.

Um judeu pós-moderno

•dezembro 5, 2008 • 4 Comentários

Mr. Catra

Por Eliseu Barreira Junior

Esta é a minha última coluna do ano no blog Unidos pela fé. Após seis críticas com pauta fixa, decidimos que cada um escolheria sobre o que escrever. E eu convido você a embarcar comigo no bonde do Mr. Catra. É isso mesmo que vocês leram. O Eliseu – aquele cara sério, segundo Carla Peralva – vai falar do funkeiro que depois de arrastar multidões no Rio de Janeiro, está invadindo a capital paulista com um som que mescla religião, sexo e cujas apresentações contam com o bumbum da Mulher Filé.


 

Pra falar a verdade, eu não sou muito fã de funk. Mas após ler a matéria “Pregações de um funkeiro”, publicada na Revista da Folha recentemente, me arrisco a dizer que a música de Catra tem seu valor. Se você não sabia como eu, o funk é um ritmo que se originou do soul norte-americano e que desembarcou no Rio de Janeiro na década de 1980. Ele foi tocado inicialmente nos bailes que ocorriam na Zona Sul da cidade e, só em seguida, chegou às áreas periféricas, onde surgiu o popular funk carioca[1].

 

 

Mr. Catra não é um funkeiro qualquer. Como define a repórter da Folha Nathalia Lavigne, “ele mistura religião e pornografia com a mesma naturalidade com que defende a poligamia e inventa uma corrente do judaísmo”. A tal corrente de que Nathalia fala é o “judaísmo salomônico”.

 

Um “judeu salomônico”, nas palavras de Catra, é que aquele que segue os princípios do rei Salomão – “conhecido por suas 700 mulheres e 300 concubinas”.

 

 

A reportagem da revista apresenta ao leitor Catra tomando como ponto de partida os preceitos, digamos, tradicionais do judaísmo. Tanto é que traz a opinião do rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista, para contestar seu pós-modernismo.

 

 

As performances de Catra, como mostra Mylene Mizrahi[2], doutoranda em sociologia e antropologia da UFRJ, que acompanha o cantor desde 2007 nas longas noites dos seus shows – é isso mesmo, o cara é tão pós que até a academia se interessou por ele – são estruturadas e marcadas pela convivência da religiosidade, sexualidade e ilegalidade. O MC abre suas apresentações entoando o refrão de louvor “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Depois, é executado o seguinte trecho da canção “Minha facção”:

 

 

Minha facção

é o bonde de Deus

já fui ladrão

e conheço o breu

se liga rapaziada

essa é que é a parada

Catra, o fiel

sinistro da Baixada

Catra, o fiel

sinistro da Baixada

Catra, o fiel

maluco pode crê

minha facção

fortalece você

só não vale corrê

vem representá

se ajoelhou

mano, vai ter que orá

Humilde e sinistro

representação

a minha facção

fortalece você

eu estô ligeiro

sempre atento e esperto

se ajoelhar

tem que fechar com o certo

 

 

Mylene afirma que após “Minha facção”, Catra se dirige ao DJ e, “em tom simultaneamente solene e jocoso” fala: “DJ Edgar, por favor, que soem as trombetas da putaria!”. “Um som de trombetas invade o espaço, acompanhado do que seria o ruído do galopar de cavalos. O MC, usando a potência de sua voz, anuncia: ‘Vai começar a putaria!’. Mr. Catra executa então diversas canções eróticas, que costumeiramente falam das benesses do sexo oral ou da troca sexual com várias e simultâneas mulheres”[3].

 

 

Nathalia, no entanto, diz em sua matéria que “O Senhor é Meu Pastor e Nada me Faltará” é um “louvor católico”, atitude que parece ter sido influenciada por um Meme dos tempos em que ainda fazia a primeira comunhão. Tal louvor é dos cristãos em geral. Ela ainda dá mais uma escorregada: “assistir a um show de Mr. Catra é como ir de um culto evangélico às casas de banho, onde também costuma cantar, em apenas meia hora”. Com essa frase, fica claro que para a repórter da Folha, cultos evangélicos e casas de banho estão na mesma linha. Aí, há uma gradação um tanto absurda e falaciosa.

 

 

Ao falar da Mulher Filé e da “Dança do Pisca”, “música que Catra compôs para a nova musa do funk carioca que ‘pisca’ o bumbum”, o texto nos apresenta a “Sagrada Família” do funkeiro por meio de uma fala da dançarina “criada pelo MC para concorrer com a Mulher Melancia, do Créu”: “O Catra nunca precisou de dançarina, é uma oportunidade que ele está me dando. Ele ajuda muito o pessoal da comunidade. Chama os funkeiros mais próximos de ‘Sagrada Família’ e sempre os convida para cantar com ele”, diz. Aqui, Catra é elevado a um patamar superior pela sua generosidade.

 

 

A partir deste trecho conhecemos o histórico do menino que, nascido na Tijuca, teve “uma infância mais parecida com os garotos de classe média da região do que com a dos que vivem no morro do Borel, onde sua mãe morava”. Criado na casa onde ela trabalhava como doméstica, Catra estudou em um colégio tradicional do Rio e, em seguida, veio a se tornar “um dos caras que mais representa o funk do morro”, nas palavras de Marcelo D2, ouvido pela reportagem.

 

 

Assim, depois de mostrar que o show de Catra vai do louvor “O Senhor é Meu Pastor e Nada me Faltará”, ao “hino da putaria”, “sem esquecer de exaltar ‘o bonde dos maconheiros’”, Nathalia apresenta ao leitor o MC que é generoso, nascido no morro e que é elogiado por outros companheiros da música.

 

 

Até que ela entra na polêmica da religião seguida pelo funkeiro. Diz que “a relação de Catra com a religião não dura apenas os dez primeiros minutos de seu show”, mas afirma que “não dá para distinguir o que é prático do que não passa de um discurso”.

 

 

Para aumentar a dúvida sobre o comportamento do MC, conta que ele se converteu ao judaísmo depois de visitar o Muro das Lamentações, mas que, “naquela mesma noite de sábado, sétimo dia do Pessach, parecia ignorar os preceitos da Páscoa judaica”. Para Nathalia, há um modelo ideal de judeu e, portanto, o que foge ao padrão deve ser questionado. A comparação seria válida, desde que não significasse a negação dos próprios objetivos do perfil do funkeiro que ela está apresentando. O que chama a atenção em Catra é o fato de ser pós-moderno, de fazer uma salada de música e sexo temperada com religião – tanto é que ele virou alvo de um trabalho acadêmico. Por isso, questionar o jeito de ser do MC, é colocar em dúvida os próprios motivos que levaram a revista a dedicar três páginas para ele. Se Nathalia vê no músico uma farsa, a matéria não tem razão de existir, certo?

 

 

Com essa postura, ela demonstra não entender que o que faz Wagner Domingues da Costa ser o Mr. Catra e, portanto, alvo de interesse jornalístico, é a contradição que o move. As concepções que norteiam o trabalho da jornalista fazem com que ela tente encaixar Catra em idéias pré-estabelecidas, buscando desconstruir suas ações contraditórias. A contradição é o motivo dele estar na revista, não o contrário. A história perde a graça com a desconstrução.

 

 

O mais curioso em Catra não é o fato de “não freqüentar sinagogas, de ignorar os preceitos do Pessach, de nunca deixar de trabalhar no dia sagrado da religião judaica, que começa no pôr-do-sol da sexta-feira e vai até o anoitecer do sábado”. O que chama nossa atenção é o fato de se dizer um judeu e ter convicções estritamente individuais, como se classificar “judeu salomônico”. Ponto-final. Assim, não interessa ao leitor um rabino dizer que não tem conhecimento da existência de uma corrente judaica salomônica. Todo mundo percebe isso. O que interessa, verdadeiramente, é saber que há um funkeiro de um morro carioca que tem um fascínio por um rei, que por causa dele defende a poligamia, proibida no judaísmo, e que cria uma corrente própria da religião que permita ter várias mulheres.

 

 

Nathalia encerra seu texto escrevendo que “Catra parece se guiar por outra passagem bíblica que está no livro dos Gênesis: ‘Crescei e multiplicai-vos’”, pois diz ser pai de 15 filhos com sete mulheres, vive com sete deles e o 16º está a caminho. É nesse fechamento que está o principal da história e que a repórter da Folha tentou questionar: o fato do funkeiro ser uma exceção à regra. Ela faz questão de chamar as teorias de Catra de “absurdas”, mas esquece que foi justamente o absurdo que a levou até ele.

 

 

De acordo com Mylene Mizrahi, que é judia e que também foi ouvida por Nathalia, “tudo que ele fala sobre isso [judaísmo] tem sentido e é sério do ponto de vista dele. É por esse discurso que ele chama atenção de seu público para a injustiça social. É um posicionamento político”. A repórter parece não ter dado conta disso. Ela estava mais preocupada com o judaísmo tradicional, com o judeu que segue os preceitos corretamente. Fortemente influenciada pelo script judaico, chega a escrever: “resta saber como vai reagir a comunidade judaica de Higienópolis à combinação deste discurso aos atributos da Mulher Filé”. Não são os rituais que fazem Catra se interessar pelo judaísmo e se dizer judeu. Ele vê na religião um outro sentido ignorado pela repórter e que ela não soube explorar.

 

 

“A sua adesão ao Judaísmo possui, segundo ele, fundamento espiritual, místico e simultaneamente político. Pois foi o que sentiu lá junto com a decepção que experimentou ao chegar de volta ao seu país que o modificou. (…) Afirma que a sua religião é a de um “povo que passou por vários holocaustos” e que aqui no Rio de Janeiro acontecem holocaustos diários.

 

(…) A leitura de Mr. Catra surge marcada por uma interpretação que encontra explicação na própria cosmologia associada a uma religião não-ocidental, distinta da católica, que viabilizaria um respeito pelo outro, diferente do que pode ser por ele experienciado no Rio de Janeiro. É a distância do Ocidente que, aos seus olhos, permite ao judeu uma visão de mundo distinta. Pois mesmo passando pela Europa, foi em Israel que encontrou um novo mundo, sem as opressoras hierarquias que guiam as pessoalizadas relações sociais estabelecidas em seu mundo de origem”, explica Mylene em seu trabalho[4].

 

 

Para que possamos entender Mr. Catra, encerro esta crítica com a letra da música que ele compôs com MC Sapinho, brasileiro e judeu, que vive em Israel[5]. Quem sabe agora, fique mais claro por que ele não é um judeu comum:

 

 

Atem tzrichim leavin

Tzarich latet kavod

Bishvil lekabel kavod

 

Daber she zé anachnu

Baruch atah adonay

Eloym achi chashuv

Ichié baruch Yerushalaim[6]

 

Na minha casa

O mal não vai entrar

Tem a Bíblia e o Alcorão

E na porta Mezuzá

 

E a Torá baruch atá

Baruch atá adonai

Quem tá puro entra

Quem tá mandado sai

 

Yoshua Je t’aime

Faith in god, iluminations

make a peace, make love

with a positive vibration

 

Com Deus no coração

Salam

Salam alekon

Salam alekon shalom[7]

 

Hoje eu fui foi lá no muro

Conversar com o rabino

Quando de repente ouvi

O bonde dos palestino

 

Meti a mão na estrada

Fui conferí qual é

O bonde mais sinistro

É Jerusa e Nazaré

 

Jerusalém

A melhor noite que tem

(repete)

 

Rebolando com as mina

Começaram a se esfregar

Chegaram perto de mim

Me pedindo neshiká

 

Id chamudá

Bitch neshiká

(repete)

 

Haifa, Tel-Avi, Guivataim, Ashdod

Acco, Nazaré, Gaza só para quem pode

Natania, Hedera, Massada, só disciplina

Das colinas do Golan à fronteira palestina

 

Eloym vem conduzindo

A caneta e o papel

Moshé abriu o Mar Vermelho

Com a força linda do céu

 

Da terra irá brotar

Vida, leite e mel

Mr Catra de Golan

E Sapinho de Israel

 

Vocês precisam entender

Pra ter respeito

É preciso respeitar

 

Fala que é nóis

Santificado seja o Senhor

Deus é o mais importante19

Haverá paz em Jerusalém

 

 

Shalom. E até 2009.


[1] Mizrahi, Milene. O senso estético funk: uma usina de imagens. http://201.48.149.88/abant/arquivos/9_5_2008_10_49_49.pdf
[2] Mizrahi, Milene. Funk, religião e ironia no mundo de Mr.Catra. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-85872007000200006&script=sci_arttext
[3] Idem 2.
[4] Ibidem 3.
[5] Ibidem 4.

[6] Nos dois primeiros parágrafos, transliterados do hebraico, são feitos louvores a Deus e repetidas palavras de ordem da favela.

[7] No sexto parágrafo, cujos versos foram igualmente transliterados, pede-se paz em árabe e hebraico.

Se o papa é pop, o Lula é Deus

•dezembro 4, 2008 • 1 Comentário

e Dilma Roussef, sua profetisa

 

Por André Eler

 

Primeiramente, lembremos que tratamos aqui do Globo – o jornal carioca, e como todo bom carioca, malandro, tolerante, simpático, malandro, fanfarrão, na palavra consagrada pelo Capitão Nascimento. Como já faz calor nesse início de Dezembro, vamos deixá-lo só de sunga. E aí, todos poderemos ir à praia, finalmente.

 

O Globo é catolicíssimo. Tão católico ao ponto de publicar a foto da Carol Castro seminua, mas com um enorme crucifixo no peito – é um jornal de família, religioso, percebeu? Não é que eu queira dizer o contrário. Mas é um jornal do catolicismo carioca, da família carioca – e não vejo tantas diferenças para a família brasileira (talvez, exceto a família paulista, que é Estadão, sistemática, católica apostólica romana, devota). O Globo – e a família brasileira – é devoto de São Jorge, que dá na mesma que Xangô. Ou de São Judas Tadeu, que só ele para auxiliar o brasileiro em suas causas impossíveis. Ou de Nossa Senhora Aparecida, que é preta, como papa nenhum nunca foi.  

 

O Globo também é católico como Eduardo Paes. Daqueles que ama falar de Deus em época de eleição. E depois agradece pelas graças alcançadas. Sobre isso, aliás, o próprio Globo escreveu de Paes. No dia 27 de outubro, segunda-feira depois das eleições, o Globo dava a vitória do candidato peemdebista, ex-PV, ex-PR, ex-PFL, ex-PSDB, ex-PTB (é, dá pra ver que fidelidade não é o forte do futuro prefeito do Rio, afinal, ele é carioca, ele é carioca…). Uma das três fotos que mostravam o dia do prefeito eleito era o homem ajoelhado, sendo abençoado por um padre, na terceira igreja católica que visitava só no dia da eleição. Se a religião não pode ser misturada com política e com assuntos de Estado para influenciá-los (afinal, o Rio não é o Bible Belt, muito menos é dominado por um grupo de fundamentalistas), ela serve como excelente pano de fundo. Para tudo: política, coluna social, sociedade, economia, internacional, polícia, cultura, ou caso Eloá. O Globo pulveriza religião ao longo de suas páginas. Como o catolicismo é a religião majoritária no Brasil, ele aparece à exaustão – mas sempre sobra espaço para a umbanda, o candomblé, o espiritismo, o protestantismo, o islamismo, o juadaísmo ou até o santo daime.

 

Pois bem, na tal matéria sobre Eduardo Paes, a música que teria sido símbolo de sua campanha tem umn destaque especial – e ela já tinha sido citada anteriormente no Globo: “‘Mas Jesus mudou minha sorte, sou um milagre e estou aqui’, cantorolou o candidato”, ressaltam Maiá Menezes, Luiz Ernesto Magalhães e Flávio Tabak. O prefeito eleito, aliás, é identificado como fiel desde o início das eleições – embora tenhamos de lembrar que chamar Eduardo Paes de fiel é uma piada pronta, nada a ver com a fé. No domingo pós-primeiro turno, o jornal indica que a Opus Christi, que foi contra a Marcha da Maconha, um grupo católico, estava a favor de Paes – o candidato, de fato, parecia ter o apoio da ICAR desde o primeiro turno. Isso, claro, não era motivo para rejeitar votos. Voltamos à mesma matéria que se seguiu às eleições e vemos o (in)fiel reconhecer o apoio da igreja evangélica. A vereadora Liliam Sá, evangélica, lembra O Globo, distribuiu panfletos contra Gabeira. Crivella, o ex-bispo da Universal, 

ofereceu “cimento eleitoral” para o peemedebista.

 

Um detalhe: Paes é do tipo do católico que toca violão na missa, que emcampa jingles muito crentes. Nada melhor para um polítco do que ser identificado com o movimento carismático. O Globo sabe que isso não tem importância alguma no debate político – mas é um estratégico uso da irrelevância que faz com que o poder da religião na política que faz com que as igrejas sejam destindas às amenidades.

 

E é assim que O Globo respeita desrespeitando a maior religião do Brasil. Ele dá semanalmente um espaço ao cardeal emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, que fala em nome do papa, na página de Opinião. Mas dá a Carol Castro de crucifixo. Ele dá espaço a Zilda Arns, da Pastoral da Criança. Mas mostra um fiel Eduardo Paes identificado com o movimento carismático. Ele mostra, de vez em quando a CNBB falando sobre qualquer coisa. Mas acha muito mais interessante quando uma Pastoral distribui camisinhas (“Entre a Tradição e a caridade”, de Chico Otavio e Adauri Antunes Barbosa, dia 4 de novembro, editoria Brasil, p. 3), positiva em relação a setores e pastorais mais abertas ao diálogo social, meio distantes do pensamento do Vaticano.

 

O Globo prefere manter os sacerdotes falando de coisas cotidianas e amenidades, e como segundo plano para conspirações políticas – é esse o papel que lhes cabe. E onde entra o papa na história?

 

Primeiro no caderno de Economia. Numa matéria sobre a crise (com o chapéu “Abalo Global”), dois olhos: num, o sumo-sacerdote dos romanistas, fala da crise, de como é ruim que o mundo se preocupe com as posses, etc, blablablá. No outro, um investidor qualquer em fórum na internet: “Quando o papa fala sobre a crise, é hora de vender, comprar ou rezar?”. Na verdade, tanto faz. Porque os leitores do Globo, como os investidores, não estão muito preocupados com o que o Papa tem a dizer sobre a crise – eles têm ideia de que seria argumentum ad verecundiam, embora talvez nem saibam o que é isso. Nem por isso deixam de ler as devocionais de dom Eugênio, ou comprar os CD’s do padre Marcelo. Este, por exemplo, aparece como referência para a dupla sertaneja Victor&Leo. O título da matéria de Leonardo Lichote fala mais alto: “Victor & Leo só estão atrás do padre Marcelo” (dia 24/10, Segundo Caderno, p.5) . A dupla é show, é pop, é fenômeno, arrasta multidões. Mas ainda não é padre Marcelo Rossi.

 

E o Lula, cadê? O Lula está com o papa, no Vaticano. Na charge de Paulo Caruso, na capa do dia 13 de novembro, Lula, o papa e Berlusconi. Lula diz: “Companheiro Papa, companheiro Berlusconi, oremos: ‘Obama, senhor nas alturas…'”. E está banalizado o papa.

 

Nas matérias que fazem a cobertura do encontro, o papa mal aparece. O que importa é dar a capa de uma Dilma e uma dona Marisa beatas, beijando a mão do pontífice. E o lançamento da candidatura da ministra a presidente, em 2010, na Itália. É disso que fala o noticiário político. Afinal, Dilma Roussef é aquela que deve exortar e conduzir o povo na jornada da próxima gestão – é a mulher a quem Lula dá seu aval para fazer tudo em nome dele e libertar esta terra. 

 

E o noticiário econômico? Este dá voz para Lula dizer que ele pediu que o papa pressione os países ricos ao cuidarem da crise. Só um box explica o que o Lula foi fazer no Vaticano – resolver questões quanto ao ensino religioso plural no Brasil. Mas enquanto o ensino for plural, não interessa muito. Interessa o que o papa diz? O Globo prefere fazer o diário do Lula. O papa é mais um padre Marcelo, uma Liliam Sá. É como se o Lula estivesse ali só pra dizer: “Mas Jesus mudou minha sorte, sou um milagre e estou aqui”.

 

Se é assim, sim. Amém nós todos.

 

 

 

Deus e o Estado

•dezembro 1, 2008 • 1 Comentário

Por Borbas

O Estadão é editorialmente católico. Disso todos nós sabemos. Até que ponto vai essa religiosidade expressa? O jornalismo essencialmente não deveria sofrer com a escolha editorial do jornal – o interesse público se mantém? o que muda com isso tudo?

Pra começar, uma notinha que sai quase religiosamente todo o dia com o diário oficial do Vaticano.

Em seguida, por mais ou menos uma vez por mês Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo e ex-mandatário da CNBB (Conferência Nacional de Bispos do Brasil), dá o ar das graças na página 2, aquela com artigos de grandes. Dom Odilo, por ser bispo da ICAR, fala daquilo em que se formou: moral católica. São sermões sobre como agir catolicamente no mundo de hoje (links para dois sermões de Dom Odilo).

Depois me vem o Papa Bento XVI e envereda pela economia no dia 7/10 (para ver, procurem a página B2 no Jornal Digital) ao lado do editorial do caderno de economia d’OESP, de Celso Ming e de um professor da Unicamp. Uma página só com experts.

Agora em setembro, no dia 28, o Estadão nos traz uma série de matérias sobre a má conservação das Igrejas de São Paulo. Quatro páginas para isso – de um total de 10 no caderno. Quatro! Páginas C1, C3, C4 e C5. É comum, nas redações dos jornais, rolar aquele clima de “não vamos usar brancos conceituais; brancos significam falta de assunto”; talvez exagerar num mesmo tema queria dizer o mesmo? Ou talvez queira dizer outra coisa…

Interesse (do meu) público

A pergunta que faço aqui é: a linha editorial de um jornal influencia sua visão de interesse público? No mesmo dia das quatro páginas sobre a má conservação das igrejas de São Paulo, o Estadão publicou uma matéria em que Lula se compara a Cristo, quatro matérias sobre o islamismo e a guerra contra o terror – uma delas sobre a Hezbollândia -, uma sobre um filme judeu, uma discussão sobre religião e legislação e uma sobre uma entidade católica que ajuda jovens grávidas, enquanto que a Folha falou de religião em quatro reportagens, uma num artigo assinado, uma sobre a Pastoral da Rua, e duas sobre Crivella.

É interessante notar duas gritantes diferenças: as matérias são completamente diferentes umas das outras e o Estado gosta mais de religião do que a Folha.

E isso não é à toa. OESP é um jornal editorialmente conservador, ligado às tradicionais famílias paulistanas – que lêem a Bíblia ou a Torá. O interesse do jornal está muito ligado às suas escolhas editoriais.

Optar por criticar o islamismo, transformar em pauta uma entidade paulistana católica que cuida de jovens grávidas e fazer uma crítica de um filme judeu são exemplos de como o julgamento interno do jornal sobre o que é ou não de interesse público são influenciados por sua escolha editorial.

O público leitor do jornal, inclusive, é igualmente conservador, católico e paulistano e a máxima jornalística de que nosso compromisso é com o nosso leitor se refaz aqui. A senhora de sessenta anos que mora em Higienópolis, vai à Praça Roosevelt todo domingo na missa e lê o Estado quer ler como notícia a denúncia sobre a má conservação das igrejas paulistanas.

O Estado gosta de Deus e tem nele uma grande fonte de pautas, tanto que muitas vezes o Espaço Aberto, página 2, para colunas e artigos assinados sobre assuntos variados, deixa de tratar de assuntos mais relevantes ou de maior importância pública para deixar Dom Odilo fazer seu pequeno sermão…

Enquanto houver quem ouça

•novembro 28, 2008 • 3 Comentários
Papa Bento XVI

Por Rafael Benaque

Imaginem uma festa de família. Daquelas que até sua prima de Cuiabá veio, daquelas capazes de arruinar os planos de qualquer um. E, em se tratando de uma reunião desse porte, até aquele seu bisavô de 96 anos marcou presença. Apesar de ter tido seu tempo áureo, vovô já não é mais o mesmo e, com uma visão de quem tinha quase 30 anos quando o nazismo floresceu na Europa, acaba se metendo na vida das pessoas, enchendo a paciência de quem está lá só para aproveitar a boca livre e, para piorar, aquela sua tia não pára de dar corda para ele.

Bom, com o perdão da analogia, o bisavô gagá que se mete onde não é chamado e carrega o ambiente com suas visões ultrapassadas representa muito bem a Igreja Católica e a querida titia que não cansa de ouvir o quanto essa juventude de hoje está desviada é assumida por O Estado de S. Paulo.

Seja na política, na economia ou nas relações sociais, a Igreja Católica sempre dá pitaco e O Estado de S. Paulo faz questão de publicar, muitas vezes com demasiado destaque. Não são raras as ocasiões em que nos deparamos com textos de bispos, padres ou simplesmente de cunho católico na página Espaço Aberto, a segunda do jornal.

Um exemplo é a coluna “Crise de Santidade” publicada no dia 16 de junho e assinada pelo diretor do Master em jornalismo Carlos Alberto di Franco. Além de fazer elogios ao falecido papa João Paulo II, o autor cita o livro “Caminho”, de São Josemaria Escrivá, num trecho que faço questão de transcrever: “Essas crises mundiais são crises de santos. Deus quer um punhado de homens ‘seus’ em cada atividade humana. Depois… ‘pax Christi in regno Christi’”. O autor também bate forte nos ateus com sua visão assustadoramente preconceituosa e agressiva: “Há anos, Christopher Hitchens, então editor do Canal 4 da televisão britânica e atualmente prosélito do ateísmo militante, num programa sensacionalista e de ranço panfletário, investiu contra Madre Teresa de Calcutá. O perfil da religiosa, provavelmente escrito em um pub londrino, entre um scotch e outro, era uma combinação de ódio represado e marketing de escândalo”. Não sei, mas essa coluna é que me parece cheia desse tal “ranço panfletário”…

Di Franco também afirma que a sociedade vive um período individualista e cheio de decepções que surgem com “a morte das utopias” e com a “crescente frustração do consumismo hedonista” (ainda bem que esse texto foi publicado antes de a bolha imobiliária estourar); que “O mundo está sedento de liberdade, mas nostálgico de certezas”, numa clara alusão ao conservadorismo e radicalismo das posturas católicas. E tem mais, o termo “prosélito”, surgido na Idade Média para designar quem se convertia ao judaísmo e utilizado para falar de Hitchens, tem uma conotação profundamente negativa. Me pergunto se O Estado daria tanto espaço para um texto elogioso a outra religião…

Outro alvo de palpites católicos é a questão do divórcio. No dia 15 de setembro, o jornal publicou uma matéria que ocupava pouco mais de um quarto de página (o restante tomado por anúncios publicitários) sobre um discurso do papa Bento XVI em Lourdes, na França. Neste, o pontífice condenou os países que possuem leis de divórcio, além de chamar de ilegítimas as uniões posteriores à separação. Deixe que Ratzinger fale por si: “Freqüentemente, as leis buscam se acomodar mais aos costumes e às reivindicações de pessoas ou grupos particulares do que à promoção do bem comum da sociedade”. Realmente, é muito bom para a sociedade que casais infelizes se mantenham juntos pelo simples fato de que o divórcio seria ilegítimo aos olhos desse deus católico. Além disso, esse pronunciamento visava também atingir Sarkozy, duas vezes divorciado e casado novamente.

Por fim, vamos falar do campo científico-educacional. De uns tempos para cá, virou moda defender o ensino do criacionismo e, no dia 17 de setembro, o jornal colocou uma nota sob o título “Fé não contradiz a teoria da evolução” relacionada ao tema. Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a cultura do Vaticano, afirmou que não há contraposição entre a fé e as teorias de Darwin e que a instituição católica não devia desculpas ao “naturalista britânico”. Vamos, mais uma vez, verificar nosso poder de interpretação: a teoria de que um ser superior criou o céu e a terra, os animais e, por fim, o homem a sua imagem e semelhança não contradiz a evolução, segundo a qual somos fruto da transformação e adaptação das espécies por meio da seleção natural?… Isso sem falar na condenação do aborto, da pesquisa com células tronco, do uso da camisinha…

A capacidade de intromissão da Igreja Católica é assustadora e, com um papa conservador como Ratzinger, a tendência é que o anacronismo das opiniões dessa instituição se torne cada vez mais flagrante e, pra completar, sempre poderemos contar com O Estado de S. Paulo para dar voz a essas opiniões ultrapassadas. Parece que essa festa vai longe…

Que Deus prolongue a crise financeira

•novembro 28, 2008 • 1 Comentário

Bento XVI

 Por Eliseu Barreira Junior

O mundo está vivendo a mais grave crise financeira desde 1929. Para se ter uma idéia, estima-se que a perda no mercado acionário global foi de US$17 trilhões, o equivalente a 13 vezes a economia do Brasil. Mas para nosso presidente da República, tudo começou como uma “marolinha”. O “tsunami” é nos Estados Unidos.

Sempre que o assunto exige um certo grau de seriedade, Lula se sente na obrigação de fazer uma piadinha. Como disse Clóvis Rossi recentemente na Folha de S. Paulo, ninguém espera que nossas autoridades sejam pessimistas e nem que saiam dizendo por aí “ai, que crise, meu Deus, o que eu faço?”. No entanto, como lembra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “Lula tenta enganar, mas a crise está aí”. Aliás, em entrevista concedida à revista Época de 27 de outubro, FHC fez um bom diagnóstico das posturas de nosso presidente: “Ele não é um homem de Estado, é de eleição. Ele é muito bom no estilo dele. Consegue, ao enganar, convencer”.

 

É verdade. A retórica de Lula é boa, mas, convenhamos, nem se aproxima a de Barack Obama, que terá a dura missão de salvar a economia mundial. Às vezes, acho que Lula não se deu conta da dimensão do problema. Parece que está mais preocupado com a sucessão presidencial de 2010. Em visita ao papa Bento XVI, no dia 13 de novembro, ele levou Dilma Rousseff na mala e, em conversa com jornalistas italianos, afirmou que ela é sua candidata. Aproveitou para dizer que o papa precisa falar mais sobre a turbulência econômica: “Se todo domingo o papa der um conselhozinho, quem sabe a gente encontre mais facilidade para resolver essa crise”.

 

Como sempre, acho que Lula pediu conselho para a pessoa errada. Se tivesse lido a matéria “Papa diz que crise reflete futilidade”, publicada em 7 de outubro no caderno Dinheiro da Folha, teria pensado duas vezes antes de fazer tal afirmação. O texto, sem assinatura, estava localizado numa página que explicava ao leitor o que gerou a crise global, as posturas adotadas pelos governos para combatê-la e tirava dúvidas do que o investidor no mercado financeiro deve fazer neste momento. Uma postura editorial compatível com os pressupostos que regem uma seção do jornal dedicada a assuntos econômicos.

 

Portanto, é de se imaginar que as falas do papa sobre o problema jamais seriam bem-vindas num contexto como esse. Comecemos pelo lead: “Futilidade do êxito e do dinheiro – é o que mostra a crise, segundo o papa Bento XVI. O pontífice opinou sobre a turbulência econômica de improviso, na abertura de um encontro com bispos, no Vaticano”. O texto continua: “O papa pediu às pessoas que cimentem sua vida sobre a ‘rocha’ da palavra divina. O papa, a ‘rocha da igreja’ para os católicos, comanda uma instituição que vai mal das contas. A Santa Sé (instituição religiosa) fechou no vermelho, em 2007, com um rombo de nove milhões de euros. O Vaticano (instituição política), com investimentos no mercado imobiliário, viu seus lucros minguarem quase 70% em 2007, com superávit de apenas 6,7 milhões de euros”.

 

Três premissas estão na base desse texto: 1) O papa não sabe o que fala, pois se expressou “de improviso”; 2) Apesar de pedir que as pessoas assentem sua vida sobre a palavra divina e de dizer que o dinheiro é futilidade, o Vaticano têm investimentos nos mercados e 3) Tal postura defendida pelo papa, além de contraditória, é ruim, pois segui-la pode significar ir “mal das contas”, “fechar no vermelho” e ver seus “lucros minguarem”. Lembre-se, essa matéria saiu numa página de um caderno de economia que traz vários serviços para quem está preocupado com seu santo dinheirinho. Logo, faz sentido colocar em xeque o sermão do sumo pontífice.

 

O texto diz que a explicação para a diminuição dos lucros do Vaticano, “à época, foi a valorização do euro ante o dólar, já que boa parte das doações vem dos EUA, onde a Igreja Católica também enfrentou uma onda de escândalos sexuais”. E conclui: “Nos anos 80, o Vaticano lidou com outra crise constrangedora, a quebra por gestão fraudulenta do Banco Ambrosiano, do qual o Banco do Vaticano era acionista. Apesar do discurso de desapego de Bento XVI, a situação financeira da igreja deve piorar, com a crise se espalhando pela Europa”.

 

Neste trecho, para o repórter, fica claro que Bento XVI não tem autoridade para falar do assunto: a instituição religiosa que lidera perdeu dinheiro por causa de escândalos sexuais e o Estado do qual é chefe teve prejuízos devido à gestão fraudulenta no Banco em que seu Banco era acionista. Ou seja, dinheiro não é coisa para católico ficar dando palpite. O texto poderia muito bem ter terminado com um “Por qué no te callas, papa?”.

 

Depois desta demonstração de que o papa não é o melhor conselheiro que existe no mundo para assuntos financeiros, sou eu quem pergunto: “Por qué no te callas, Lula?”. Questionamento também feito por Elio Gaspari em sua coluna do dia 12 de outubro na Folha. Gaspari escreveu: “Administrando uma crise que botou a Bolsa de joelho, meia dúzia de bancos no vermelho e o dólar a R$2,30, o presidente da República pode fazer tudo, menos tratá-la com olhar de marqueteiro (…) Quem trata a crise como coisa pitoresca, num personagem pitoresco se transforma”.

 

Assim, podemos afirmar que a matéria da Folha faz mais ou menos o mesmo com a postura adotada por Bento XVI: transforma num personagem pitoresco, quem trata a crise como uma coisa pitoresca. Dá para perceber que nossos queridos presidente e papa possuem muitos traços em comum: precisam aprender a ficar calados diante da turbulência global.

 

Apesar disso, Bento XVI pode ficar contente. Seus conselhos têm sido seguidos à risca pelos católicos brasileiros (eu estou sendo irônico e malvado). Reportagem da revista Época de 27 de outubro, diz que “um bom retrato da mudança que está em curso no mundo das finanças pessoais [devido à crise] foi captado pelo padre José Ailton Teodoro, pároco da Igreja Santa Edwiges, em Brasília. Canonizada por Clemente IV em 1267, Santa Edwiges é a protetora dos desempregados, dos desanimados e também dos endividados (…) de umas semanas para cá, o padre Teodoro notou que jamais os pedidos de ajuda para obter uma graça da santa tinham um tema único e obsessivo – a crise financeira. ‘Recebi duas mil fichas nesse período e pelo menos a metade trata desse assunto’, diz o padre (…) ‘Muitos estão com medo de não conseguir pagar a prestação do carro. Recebi também o pedido de preces para não deixar a Bolsa de Valores quebrar de uma vez’”.

 

Percebe-se que as pessoas estão recorrendo à palavra de Deus, como sugeriu o papa Ratzinger. Entretanto, em vez de buscarem cimentar suas vidas sobre a “rocha” da palavra divina, estão fazendo preces para que a turbulência financeira não as afunde num mar de incertezas que a falta de dinheiro – aquele mesmo, chamado de fútil por Bento XVI – pode trazer. Uma das personagens da matéria de Época – Nilza Vernay, de 72 – diz que essa crise só veio piorar sua situação econômica e “aumentar [sua] fé”. Um ponto positivo para a Igreja Católica que só vê cair o número de fiéis no Brasil – algo não previsto pela irônica matéria da Folha. Que Deus prolongue, portanto, a crise global por muito tempo. Apesar de ver futilidade na questão, o papa Bento XVI certamente ficaria feliz. Afinal de contas, time is money!