Se o papa é pop, o Lula é Deus

e Dilma Roussef, sua profetisa

 

Por André Eler

 

Primeiramente, lembremos que tratamos aqui do Globo – o jornal carioca, e como todo bom carioca, malandro, tolerante, simpático, malandro, fanfarrão, na palavra consagrada pelo Capitão Nascimento. Como já faz calor nesse início de Dezembro, vamos deixá-lo só de sunga. E aí, todos poderemos ir à praia, finalmente.

 

O Globo é catolicíssimo. Tão católico ao ponto de publicar a foto da Carol Castro seminua, mas com um enorme crucifixo no peito - é um jornal de família, religioso, percebeu? Não é que eu queira dizer o contrário. Mas é um jornal do catolicismo carioca, da família carioca – e não vejo tantas diferenças para a família brasileira (talvez, exceto a família paulista, que é Estadão, sistemática, católica apostólica romana, devota). O Globo – e a família brasileira – é devoto de São Jorge, que dá na mesma que Xangô. Ou de São Judas Tadeu, que só ele para auxiliar o brasileiro em suas causas impossíveis. Ou de Nossa Senhora Aparecida, que é preta, como papa nenhum nunca foi.  

 

O Globo também é católico como Eduardo Paes. Daqueles que ama falar de Deus em época de eleição. E depois agradece pelas graças alcançadas. Sobre isso, aliás, o próprio Globo escreveu de Paes. No dia 27 de outubro, segunda-feira depois das eleições, o Globo dava a vitória do candidato peemdebista, ex-PV, ex-PR, ex-PFL, ex-PSDB, ex-PTB (é, dá pra ver que fidelidade não é o forte do futuro prefeito do Rio, afinal, ele é carioca, ele é carioca…). Uma das três fotos que mostravam o dia do prefeito eleito era o homem ajoelhado, sendo abençoado por um padre, na terceira igreja católica que visitava só no dia da eleição. Se a religião não pode ser misturada com política e com assuntos de Estado para influenciá-los (afinal, o Rio não é o Bible Belt, muito menos é dominado por um grupo de fundamentalistas), ela serve como excelente pano de fundo. Para tudo: política, coluna social, sociedade, economia, internacional, polícia, cultura, ou caso Eloá. O Globo pulveriza religião ao longo de suas páginas. Como o catolicismo é a religião majoritária no Brasil, ele aparece à exaustão – mas sempre sobra espaço para a umbanda, o candomblé, o espiritismo, o protestantismo, o islamismo, o juadaísmo ou até o santo daime.

 

Pois bem, na tal matéria sobre Eduardo Paes, a música que teria sido símbolo de sua campanha tem umn destaque especial – e ela já tinha sido citada anteriormente no Globo: “‘Mas Jesus mudou minha sorte, sou um milagre e estou aqui’, cantorolou o candidato”, ressaltam Maiá Menezes, Luiz Ernesto Magalhães e Flávio Tabak. O prefeito eleito, aliás, é identificado como fiel desde o início das eleições – embora tenhamos de lembrar que chamar Eduardo Paes de fiel é uma piada pronta, nada a ver com a fé. No domingo pós-primeiro turno, o jornal indica que a Opus Christi, que foi contra a Marcha da Maconha, um grupo católico, estava a favor de Paes – o candidato, de fato, parecia ter o apoio da ICAR desde o primeiro turno. Isso, claro, não era motivo para rejeitar votos. Voltamos à mesma matéria que se seguiu às eleições e vemos o (in)fiel reconhecer o apoio da igreja evangélica. A vereadora Liliam Sá, evangélica, lembra O Globo, distribuiu panfletos contra Gabeira. Crivella, o ex-bispo da Universal, 

ofereceu “cimento eleitoral” para o peemedebista.

 

Um detalhe: Paes é do tipo do católico que toca violão na missa, que emcampa jingles muito crentes. Nada melhor para um polítco do que ser identificado com o movimento carismático. O Globo sabe que isso não tem importância alguma no debate político – mas é um estratégico uso da irrelevância que faz com que o poder da religião na política que faz com que as igrejas sejam destindas às amenidades.

 

E é assim que O Globo respeita desrespeitando a maior religião do Brasil. Ele dá semanalmente um espaço ao cardeal emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, que fala em nome do papa, na página de Opinião. Mas dá a Carol Castro de crucifixo. Ele dá espaço a Zilda Arns, da Pastoral da Criança. Mas mostra um fiel Eduardo Paes identificado com o movimento carismático. Ele mostra, de vez em quando a CNBB falando sobre qualquer coisa. Mas acha muito mais interessante quando uma Pastoral distribui camisinhas (“Entre a Tradição e a caridade”, de Chico Otavio e Adauri Antunes Barbosa, dia 4 de novembro, editoria Brasil, p. 3), positiva em relação a setores e pastorais mais abertas ao diálogo social, meio distantes do pensamento do Vaticano.

 

O Globo prefere manter os sacerdotes falando de coisas cotidianas e amenidades, e como segundo plano para conspirações políticas – é esse o papel que lhes cabe. E onde entra o papa na história?

 

Primeiro no caderno de Economia. Numa matéria sobre a crise (com o chapéu “Abalo Global”), dois olhos: num, o sumo-sacerdote dos romanistas, fala da crise, de como é ruim que o mundo se preocupe com as posses, etc, blablablá. No outro, um investidor qualquer em fórum na internet: “Quando o papa fala sobre a crise, é hora de vender, comprar ou rezar?”. Na verdade, tanto faz. Porque os leitores do Globo, como os investidores, não estão muito preocupados com o que o Papa tem a dizer sobre a crise – eles têm ideia de que seria argumentum ad verecundiam, embora talvez nem saibam o que é isso. Nem por isso deixam de ler as devocionais de dom Eugênio, ou comprar os CD’s do padre Marcelo. Este, por exemplo, aparece como referência para a dupla sertaneja Victor&Leo. O título da matéria de Leonardo Lichote fala mais alto: “Victor & Leo só estão atrás do padre Marcelo” (dia 24/10, Segundo Caderno, p.5) . A dupla é show, é pop, é fenômeno, arrasta multidões. Mas ainda não é padre Marcelo Rossi.

 

E o Lula, cadê? O Lula está com o papa, no Vaticano. Na charge de Paulo Caruso, na capa do dia 13 de novembro, Lula, o papa e Berlusconi. Lula diz: “Companheiro Papa, companheiro Berlusconi, oremos: ‘Obama, senhor nas alturas…’”. E está banalizado o papa.

 

Nas matérias que fazem a cobertura do encontro, o papa mal aparece. O que importa é dar a capa de uma Dilma e uma dona Marisa beatas, beijando a mão do pontífice. E o lançamento da candidatura da ministra a presidente, em 2010, na Itália. É disso que fala o noticiário político. Afinal, Dilma Roussef é aquela que deve exortar e conduzir o povo na jornada da próxima gestão – é a mulher a quem Lula dá seu aval para fazer tudo em nome dele e libertar esta terra. 

 

E o noticiário econômico? Este dá voz para Lula dizer que ele pediu que o papa pressione os países ricos ao cuidarem da crise. Só um box explica o que o Lula foi fazer no Vaticano – resolver questões quanto ao ensino religioso plural no Brasil. Mas enquanto o ensino for plural, não interessa muito. Interessa o que o papa diz? O Globo prefere fazer o diário do Lula. O papa é mais um padre Marcelo, uma Liliam Sá. É como se o Lula estivesse ali só pra dizer: “Mas Jesus mudou minha sorte, sou um milagre e estou aqui”.

 

Se é assim, sim. Amém nós todos.

 

 

 

~ por André Eler em dezembro 4, 2008.

Uma resposta to “Se o papa é pop, o Lula é Deus”

  1. Esse texto me fez pensar sobre a relação entre o Rio de Janeiro e as religiões ditas evangélicas. Me lembro quando estive na praia de Provetá, na Ilha Grande, em época de eleição, da quantidade de panfletos ligando os nomes dos candidatos à religião. Texto curioso, que busca atrair a atenção do leitor pelas relações entre certas figuras do cenário político nacional! Sim, Papa é pop!

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