Por Unidos pela fé
A sabedoria popular nos ensina que há três assuntos que afetam a vida da sociedade cuja discussão é melhor evitar: política, religião e futebol. Tais temas costumam alterar os ânimos das pessoas e, quase sempre, causam brigas homéricas. Nesse tipo de debate todos se acham donos da verdade e ninguém abre mão de suas posições. Falar de algo que oferece consolo para alguns e não passa de instrumento de manipulação para outros é como pisar num terreno repleto de minas prontas para explodir.
Alguns debates, no entanto, têm um fim. As questões levantadas mexem com os sentimentos e valores de todos nós e, por isso mesmo, quase ninguém consegue fugir delas. O jornalismo, obviamente, não está imune ao fenômeno. E é por isso que nos reunimos neste blog para analisar a cobertura de temas religiosos nos veículos de comunicação impressa mais importantes do país, a saber: os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e a revista Veja.
Quatro meses após o surgimento do Unidos pela fé, 35 posts foram publicados e mais de três mil visualizações ocorreram. Desse trabalho, pudemos constatar que a imprensa brasileira é, muitas vezes, preconceituosa ao tratar de religião e que há muito a ser melhorado na cobertura desses assuntos.
Podemos resumir as hipóteses que nortearam nossas críticas ao longo deste semestre em dois pontos:
a) se há um tratamento privilegiado para o catolicismo, religião com maior número de seguidores no Brasil;
b) em que medida o discurso sobre as religiões e a religiosidade, publicados nos veículos estudados, embute e propaga, explícita ou implicitamente, alinhamentos favoráveis ou desfavoráveis a esta ou aquela confissão.
A partir disso, foi possível colocar em discussão as estratégias discursivas utilizadas pelos jornalistas brasileiros num contexto em que o país está mais religioso, como mostrou estudo divulgado em maio de 2007 pelo Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) sobre a economia das religiões1 a partir do processamento de micro-dados produzidos pelo IBGE (2000 a 2003).
O trabalho da FGV apontou que pela primeira vez em mais de um século a proporção de católicos no Brasil parou de cair, mantendo-se estável no primeiro quarto de década com 73,79% em 2003. Já os evangélicos continuaram crescendo, passando de 16,2% em 2000 para 17,9% em 2003.
A novidade é que os sem religião – que passaram de 7,4% para 5,1% – estão se tornando evangélicos.
Diante desse fenômeno, nós, do Unidos pela fé, tentamos a todo momento mapear os vieses presentes na cobertura de temas vinculados à religião.
Esperamos que o blog tenha contribuído para tal reflexão que pretendemos estender ao longo do ano de 2009. Abaixo, o leitor poderá encontrar uma síntese da experiência de cada blogueiro do Unidos pela fé.
Revista Veja
Por Ana Paula Manzalli, a espírita convicta
Os Unidos pela Fé sempre brincam comigo dizendo que eles me deixaram o trabalho mais fácil, a única revista semanal aqui analisada. De fato, levo menos tempo para fazer leituras e tabulações e me divirto infinitamente mais com a acidez de Veja.
Foi possível observar, com as seis análises da publicação, que a religião quase nunca é levada a sério pela revista. Ela funciona como ferramenta de ridicularização de um músico “profeta” e sua influência nas eleições americanas é subestimada. Em casos de religiões específicas, a evangélica é utilizada para desmerecer políticos; o islamismo é transformado automaticamente em terrorismo e atraso; o espiritismo é motivo de trocadilhos e ironias que ultrapassam o mau gosto.
Mesmo o catolicismo – que, segundo nossas hipóteses, teria mais espaço na imprensa com textos favoráveis a ele – só é respeitado quando não interfere em assuntos políticos ou científicos. A diferença entre Veja e os outros jornais é o seu laicismo, a valorização da razão em oposição à religião.
Em relação ao texto, Veja destoa dos jornais porque expressa sua opinião de forma muito mais aberta, agressiva – e, também por isso – falaciosa. Ela se vê no papel de alertar seus leitores, dizer a eles o quanto é absurdo ter fé, acreditar em coisas tão irracionais. E, ao fazer isso com piadas e ironias, a revista se esquece de embasar sua argumentação e perde, ela mesma, a razão. Sorte minha: tenho que ler menos, me divirto mais e as falácias pulam em meu colo – basta esmiuçá-las.
Jornal O Globo
Por André Eler, o protestante calvinista neoliberal
O Globo é o carioca do grupo de veículos analisados – talvez pelo calor, pela falta da rigidez que há em São Paulo, ele me pareça o mais brasileiro de todos. Isso pode parecer irrelevante, mas se reflete na produção jornalística do jornal. Ele tem editorias que não fazem muita questão de distinguir os assuntos de política dos de cotidiano, tem colunas que misturam social, economia e política, tem um caderno de esportes que toca em todos os temas, um caderno de cultura eclético.
A religião se espalha sobre todas as páginas do Globo. Mas ela é citada entre um acidente de carro, uma festa de famosos, uma passeata pela paz, uma campanha eleitoral. O Globo não aborda o tema religião descolado do resto da vida pública. E, paradoxalmente, abomina que a religião exista como força política, que interfira nas diversas instâncias da vida pública. A religião é uma conquista dentre as liberdades individuais e deve permanecer nesse plano.
Ela serve como contexto, como anedota, como uma forma de humanizar a matéria. A religião do Globo está no cotidiano, ela é profana. Ela aceita o semelhante, sem levantar a tese de que algum ponto de vista esteja errado. A religião deve ser tolerante e tolerada. Banalizada, até. Mas a fé de ninguém pode ser tomada como verdade absoluta. Por isso mesmo, a fé de ninguém é contestada.
O Globo reforça alguns dos mesmos preconceitos dos demais veículos. Mas faz questão de reforçar mesmo o script de que o brasileiro é bom, múltiplo, vário, tolerante – quase carioca. E assim, nem ele, nem os políticos, e muito menos as religiões devem ser levados muito a sério. Isso não impede reflexões acerca de qual deve ser a posição do leitor. Muito pelo contrário: já que não dá para levar ninguém a sério, critiquemos tudo e cobremos uma postura de respeito com o que é público (e múltiplo, e vário).
Quem lê O Globo, não deve levar nem O Globo a sério. Afinal, ele é carioca.
Jornal Folha de S. Paulo
Por Eliseu Barreira Junior, o agnóstico que traz no peito a estrela de Davi
O maior jornal do País. Esse é o epíteto da Folha de S. Paulo. A publicação paulista, como todo mundo já deve estar cansado de saber, em seu “Manual de Redação” assinala como seu mais importante princípio editorial a defesa do pluralismo de idéias e opiniões. Por isso, todas as tendências ideológicas expressivas da sociedade devem estar presentes nas páginas do jornal. A busca pela apresentação da diversidade religiosa e a defesa da multiplicidade de cultos e credos são metas que a Folha deseja seguir.
Entretanto, ao longo do meu trabalho de crítico do jornal – uma espécie de ombudsman dos temas religiosos tratados nos últimos sete meses – pude constatar que esse paradigma nem sempre é verdadeiro. Há deficiências, principalmente, quando o assunto são os evangélicos – algo que acredito ser procedente da disputa judicial entre a Folha e a igreja Universal do Reino de Deus e da idéia difundida na sociedade brasileira de que eles são charlatões e só estão interessados no dízimo dos fiéis.
A atividade de criticar o trabalho dos outros não é fácil. Controlar nossos sentimentos ao analisar o texto de alguém e ser, ao mesmo tempo, objetivo é uma tarefa um pouco ingrata. Em muitos momentos, me questionava quem eu achava que era para falar mal do texto dos outros. Em virtude disso, tentei ao máximo trabalhar com referenciais teóricos para mostrar se os discursos que me propus a estudar eram bons ou ruins.
Espero que tenha desempenhado um bom papel enquanto crítico e que toda a experiência que obtive sirva de lição para quando eu estiver no lugar de quem eu critiquei. Assim, creio que poderei acertar mais e, portanto, errar muito menos do que os jornalistas com que me confrontei nos sete textos que escrevi neste semestre.
A análise do discurso é uma excelente ferramenta para quem pretende ser jornalista. Ela permite que os sentidos construídos por um texto sejam verificados e que este seja visto como um objeto de significação que se constrói na relação com os demais objetos culturais, pois está inserido em uma sociedade, em um dado momento histórico e é determinado por formações ideológicas específicas. Neste sentido, o jornalismo que tem a qualidade e o pluralismo como uma meta deve prestar mais atenção na importância desse tipo de estudo.
Um estudo que pretende contribuir para que as mensagens transmitidas pelos formadores de opinião não semeiem sentimentos e opiniões em campos tão controversos e polêmicos como o da religião.
Jornal O Estado de S. Paulo
Por Borbas, o ateu ‘graças a Deus’, e Rafael Benaque, o ateu ‘heavy metal’
Ter história é ótimo para a análise que o unidospelafe fez. O Estado de S. Paulo no decorrer de seus mais de 170 anos idos mostrou sua linha editorial: inicialmente, republicano e hoje conservador moralmente, liberal economicamente e católico. Se OESP tivesse um rosto, certamente seria baseado na genética dos Mesquita, que ainda traçam o grosso das características do jornal. E isso facilita muito o trabalho de análise do discurso.
Um jornal, quando se propõe a divulgar informações pelo filtro de determinada linha editorial, cria um globo de verdades – o jornalismo de modo geral tem a característica de gerar visões de mundo. E a visão de mundo gerada pelo Estadão passa por morais católicas.
É claro que, se um jornal traz um diário do Vaticano e tem como colunista fixo Dom Odilo Scherer, algo está implícito…ou talvez explícito!
OESP não fica, porém, recluso a sua fé; como um guerreiro nas Cruzadas, o jornal toma partido em criticar outras religiões, seja os freqüentadores da Barão de Sarzedas e dos vagões da CPTM, seja os moradores da Hezbollândia.
Jornalisticamente falando, é mais fácil para o leitor se deparar com um texto que é sabidamente parcial sobre determinados assuntos, uma vez que, igualmente como ocorre com a Aninha e a Veja, os exageros pulam aos olhos.
Resta ao unidospelafe esculhambar tudo.
1 A pesquisa completa está disponível em: http://www4.fgv.br/cps/simulador/site%5Freligioes2/. Acesso em 27.09.08.
