Carta ao leitor

•Dezembro 5, 2008 • 3 Comentários

 

Por Unidos pela fé

A sabedoria popular nos ensina que há três assuntos que afetam a vida da sociedade cuja discussão é melhor evitar: política, religião e futebol. Tais temas costumam alterar os ânimos das pessoas e, quase sempre, causam brigas homéricas. Nesse tipo de debate todos se acham donos da verdade e ninguém abre mão de suas posições. Falar de algo que oferece consolo para alguns e não passa de instrumento de manipulação para outros é como pisar num terreno repleto de minas prontas para explodir.

Alguns debates, no entanto, têm um fim. As questões levantadas mexem com os sentimentos e valores de todos nós e, por isso mesmo, quase ninguém consegue fugir delas. O jornalismo, obviamente, não está imune ao fenômeno. E é por isso que nos reunimos neste blog para analisar a cobertura de temas religiosos nos veículos de comunicação impressa mais importantes do país, a saber: os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e a revista Veja.

Quatro meses após o surgimento do Unidos pela fé, 35 posts foram publicados e mais de três mil visualizações ocorreram. Desse trabalho, pudemos constatar que a imprensa brasileira é, muitas vezes, preconceituosa ao tratar de religião e que há muito a ser melhorado na cobertura desses assuntos.

Podemos resumir as hipóteses que nortearam nossas críticas ao longo deste semestre em dois pontos:

a) se há um tratamento privilegiado para o catolicismo, religião com maior número de seguidores no Brasil;

b) em que medida o discurso sobre as religiões e a religiosidade, publicados nos veículos estudados, embute e propaga, explícita ou implicitamente, alinhamentos favoráveis ou desfavoráveis a esta ou aquela confissão.

A partir disso, foi possível colocar em discussão as estratégias discursivas utilizadas pelos jornalistas brasileiros num contexto em que o país está mais religioso, como mostrou estudo divulgado em maio de 2007 pelo Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) sobre a economia das religiões1 a partir do processamento de micro-dados produzidos pelo IBGE (2000 a 2003).

O trabalho da FGV apontou que pela primeira vez em mais de um século a proporção de católicos no Brasil parou de cair, mantendo-se estável no primeiro quarto de década com 73,79% em 2003. Já os evangélicos continuaram crescendo, passando de 16,2% em 2000 para 17,9% em 2003.

A novidade é que os sem religião – que passaram de 7,4% para 5,1% – estão se tornando evangélicos.

Diante desse fenômeno, nós, do Unidos pela fé, tentamos a todo momento mapear os vieses presentes na cobertura de temas vinculados à religião.

Esperamos que o blog tenha contribuído para tal reflexão que pretendemos estender ao longo do ano de 2009. Abaixo, o leitor poderá encontrar uma síntese da experiência de cada blogueiro do Unidos pela fé.

Revista Veja

Por Ana Paula Manzalli, a espírita convicta

Os Unidos pela Fé sempre brincam comigo dizendo que eles me deixaram o trabalho mais fácil, a única revista semanal aqui analisada. De fato, levo menos tempo para fazer leituras e tabulações e me divirto infinitamente mais com a acidez de Veja.

Foi possível observar, com as seis análises da publicação, que a religião quase nunca é levada a sério pela revista. Ela funciona como ferramenta de ridicularização de um músico “profeta” e sua influência nas eleições americanas é subestimada. Em casos de religiões específicas, a evangélica é utilizada para desmerecer políticos; o islamismo é transformado automaticamente em terrorismo e atraso; o espiritismo é motivo de trocadilhos e ironias que ultrapassam o mau gosto.

Mesmo o catolicismo – que, segundo nossas hipóteses, teria mais espaço na imprensa com textos favoráveis a ele – só é respeitado quando não interfere em assuntos políticos ou científicos. A diferença entre Veja e os outros jornais é o seu laicismo, a valorização da razão em oposição à religião.

Em relação ao texto, Veja destoa dos jornais porque expressa sua opinião de forma muito mais aberta, agressiva – e, também por isso – falaciosa. Ela se vê no papel de alertar seus leitores, dizer a eles o quanto é absurdo ter fé, acreditar em coisas tão irracionais. E, ao fazer isso com piadas e ironias, a revista se esquece de embasar sua argumentação e perde, ela mesma, a razão. Sorte minha: tenho que ler menos, me divirto mais e as falácias pulam em meu colo – basta esmiuçá-las.

Jornal O Globo

Por André Eler, o protestante calvinista neoliberal

O Globo é o carioca do grupo de veículos analisados – talvez pelo calor, pela falta da rigidez que há em São Paulo, ele me pareça o mais brasileiro de todos. Isso pode parecer irrelevante, mas se reflete na produção jornalística do jornal. Ele tem editorias que não fazem muita questão de distinguir os assuntos de política dos de cotidiano, tem colunas que misturam social, economia e política, tem um caderno de esportes que toca em todos os temas, um caderno de cultura eclético.

A religião se espalha sobre todas as páginas do Globo. Mas ela é citada entre um acidente de carro, uma festa de famosos, uma passeata pela paz, uma campanha eleitoral. O Globo não aborda o tema religião descolado do resto da vida pública. E, paradoxalmente, abomina que a religião exista como força política, que interfira nas diversas instâncias da vida pública. A religião é uma conquista dentre as liberdades individuais e deve permanecer nesse plano.

Ela serve como contexto, como anedota, como uma forma de humanizar a matéria. A religião do Globo está no cotidiano, ela é profana. Ela aceita o semelhante, sem levantar a tese de que algum ponto de vista esteja errado. A religião deve ser tolerante e tolerada. Banalizada, até. Mas a fé de ninguém pode ser tomada como verdade absoluta. Por isso mesmo, a fé de ninguém é contestada.

O Globo reforça alguns dos mesmos preconceitos dos demais veículos. Mas faz questão de reforçar mesmo o script de que o brasileiro é bom, múltiplo, vário, tolerante – quase carioca. E assim, nem ele, nem os políticos, e muito menos as religiões devem ser levados muito a sério. Isso não impede reflexões acerca de qual deve ser a posição do leitor. Muito pelo contrário: já que não dá para levar ninguém a sério, critiquemos tudo e cobremos uma postura de respeito com o que é público (e múltiplo, e vário).

Quem lê O Globo, não deve levar nem O Globo a sério. Afinal, ele é carioca.

Jornal Folha de S. Paulo

Por Eliseu Barreira Junior, o agnóstico que traz no peito a estrela de Davi

O maior jornal do País. Esse é o epíteto da Folha de S. Paulo. A publicação paulista, como todo mundo já deve estar cansado de saber, em seu “Manual de Redação” assinala como seu mais importante princípio editorial a defesa do pluralismo de idéias e opiniões. Por isso, todas as tendências ideológicas expressivas da sociedade devem estar presentes nas páginas do jornal. A busca pela apresentação da diversidade religiosa e a defesa da multiplicidade de cultos e credos são metas que a Folha deseja seguir.

Entretanto, ao longo do meu trabalho de crítico do jornal – uma espécie de ombudsman dos temas religiosos tratados nos últimos sete meses – pude constatar que esse paradigma nem sempre é verdadeiro. Há deficiências, principalmente, quando o assunto são os evangélicos – algo que acredito ser procedente da disputa judicial entre a Folha e a igreja Universal do Reino de Deus e da idéia difundida na sociedade brasileira de que eles são charlatões e só estão interessados no dízimo dos fiéis.

A atividade de criticar o trabalho dos outros não é fácil. Controlar nossos sentimentos ao analisar o texto de alguém e ser, ao mesmo tempo, objetivo é uma tarefa um pouco ingrata. Em muitos momentos, me questionava quem eu achava que era para falar mal do texto dos outros. Em virtude disso, tentei ao máximo trabalhar com referenciais teóricos para mostrar se os discursos que me propus a estudar eram bons ou ruins.

Espero que tenha desempenhado um bom papel enquanto crítico e que toda a experiência que obtive sirva de lição para quando eu estiver no lugar de quem eu critiquei. Assim, creio que poderei acertar mais e, portanto, errar muito menos do que os jornalistas com que me confrontei nos sete textos que escrevi neste semestre.

A análise do discurso é uma excelente ferramenta para quem pretende ser jornalista. Ela permite que os sentidos construídos por um texto sejam verificados e que este seja visto como um objeto de significação que se constrói na relação com os demais objetos culturais, pois está inserido em uma sociedade, em um dado momento histórico e é determinado por formações ideológicas específicas. Neste sentido, o jornalismo que tem a qualidade e o pluralismo como uma meta deve prestar mais atenção na importância desse tipo de estudo.

Um estudo que pretende contribuir para que as mensagens transmitidas pelos formadores de opinião não semeiem sentimentos e opiniões em campos tão controversos e polêmicos como o da religião.

Jornal O Estado de S. Paulo

Por Borbas, o ateu ‘graças a Deus’, e Rafael Benaque, o ateu ‘heavy metal’

Ter história é ótimo para a análise que o unidospelafe fez. O Estado de S. Paulo no decorrer de seus mais de 170 anos idos mostrou sua linha editorial: inicialmente, republicano e hoje conservador moralmente, liberal economicamente e católico. Se OESP tivesse um rosto, certamente seria baseado na genética dos Mesquita, que ainda traçam o grosso das características do jornal. E isso facilita muito o trabalho de análise do discurso.

Um jornal, quando se propõe a divulgar informações pelo filtro de determinada linha editorial, cria um globo de verdades – o jornalismo de modo geral tem a característica de gerar visões de mundo. E a visão de mundo gerada pelo Estadão passa por morais católicas.

É claro que, se um jornal traz um diário do Vaticano e tem como colunista fixo Dom Odilo Scherer, algo está implícito…ou talvez explícito!

OESP não fica, porém, recluso a sua fé; como um guerreiro nas Cruzadas, o jornal toma partido em criticar outras religiões, seja os freqüentadores da Barão de Sarzedas e dos vagões da CPTM, seja os moradores da Hezbollândia.

Jornalisticamente falando, é mais fácil para o leitor se deparar com um texto que é sabidamente parcial sobre determinados assuntos, uma vez que, igualmente como ocorre com a Aninha e a Veja, os exageros pulam aos olhos.

Resta ao unidospelafe esculhambar tudo.

1 A pesquisa completa está disponível em: http://www4.fgv.br/cps/simulador/site%5Freligioes2/. Acesso em 27.09.08.

 

 

 

 

 

Exemplos do espiritismo e do não-jornalismo

•Dezembro 5, 2008 • 9 Comentários

Por Ana Paula Manzalli

Nesta última coluna do ano, posso falar sobre o que quiser. E não seria eu a mais óbvia das críticas se não tratasse do espiritismo, minha religião desde sempre. Talvez, em virtude disso, eu seja mais subjetiva em minha crítica. No entanto, ela continua sendo válida porque é compensada com um conhecimento da religião que os jornalistas aqui analisados não demonstram ter.

Para tratar da cobertura desse tema pela imprensa brasileira, começarei falando, excepcionalmente, da revista Época. No dia 29 de setembro de 2008, Época publicou “Uma obra que fala ao espírito”, da jornalista Martha Mendonça. Trata-se de uma reportagem de seis páginas, que aproveita o gancho do filme “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito” para falar do espiritismo no Brasil e do nicho do “cinema transcendental”.

A matéria, como um todo, é positiva em relação à religião. Segundo a revista, o IBGE afirma ter 20 milhões de espíritas no Brasil, o maior país espírita do mundo. No entanto, de acordo com este documento do censo de 2000, os espíritas somam pouco mais de 2 milhões. Martha se sai bem nas explicações de conceitos da doutrina, como a máxima “fora da caridade não há salvação” e a idéia espírita de reencarnação para um “auto-ajuste de contas”. Contudo, a repórter comete alguns erros em relação ao vocabulário referente ao espiritismo. Isso porque os jornalistas adoram usar expressões que remetem a religião quando estão falando sobre o tema – mas, ao fazê-lo, escolhem palavras específicas de apenas algumas crenças.

Época, por exemplo, começa um texto sobre espiritismo falando em “milagre” (fato ou ocorrência que não se explica pelas leis da natureza)! No espiritismo, todos os fenômenos chamados de milagres por outras religiões não são assim chamados por nós, porque acreditamos que tudo tem uma explicação lógica, científica, dada pela doutrina. Pelo mesmo motivo, não acho adequado dizer que “as filmagens foram cercadas de acontecimentos sobrenaturais”; afinal, tudo o que acontece na Terra segue as leis da natureza; portanto, o sobrenatural não existe no espiritismo.

Não se deve encampar o discurso de cada religião ao escrever sobre ela (e, no entanto, nenhum jornalista erra ao escrever sobre catolicismo). Por isso, não vejo problema em dizer que um livro foi “supostamente” psicografado. Mas Martha Mendonça, ao dizer que a doutrina tem “roupagem lógica”, pode dar a impressão de que a lógica é só uma camuflagem do espiritismo, quando, na verdade, os pilares dele são a ciência, a filosofia e a religião. Ela tem, ainda, um último tropeço na boa explicação da reencarnação. Ela diz que o auto-ajuste de contas “pode levar à eternidade”*. A eternidade, para os espíritas, não é uma possibilidade, uma oportunidade. Ela é real e todos os espíritos são eternos, demorando mais ou menos tempo para chegar à perfeição por meio desse “auto-ajuste de contas” – que chamamos de reforma íntima.

Na mesma semana, Veja escreveu “Sessão espírita” (24/09). Confesso que minha reação foi de apreensão quando vi que a revista iria falar da minha religião – ainda mais porque o autor da matéria é Marcelo Marthe, que ridicularizou Lirinha valendo-se da religião. Como esperado, havia ironias e mais palavras inadequadas no texto, mas a pancada não foi tão forte assim.

Marthe diz que o filme trata de um “personagem histórico curioso” que morreu em 1900, “mas consta que continua a dar notícias com freqüência”. Além dessa ironia, o repórter tenta ser descontraído – e mais uma vez irônico – ao dizer que o “fantasma [de Bezerra] teria baixado no set”. Nesta frase, existem dois problemas: “fantasma” é uma forma estereotipada e mistificada de dizer “espírito”; e “baixar”, além de ser um termo próprio da umbanda, significa “incorporar-se em um médium”, o que não aconteceu (pessoas dizem ter visto seu espírito presente nas gravações, e não incorporado em um ator!).

A imprecisão de Martha em relação à palavra “sobrenatural” se repete em Veja. Mas, mais do que isso, Marthe usa palavras místicas ou relacionadas à religião para fazer trocadilhos, como “[o filme] parece durar a eternidade” e “as interpretações são um assombro”.

Nada se compara, no entanto, com o que Filipe Vilicic é capaz de fazer com o espiritismo em apenas uma página de Veja São Paulo, de 19 de novembro (essa matéria não usa o filme como gancho). Com o título vazio e descontextualizado “Prazer, sou o Quito Formiga”, Vilicic escreve dois parágrafos sobre um médium, primeiro suplente do PR, que ocupará a cadeira de Marcos Cintra na Câmara Municipal, porque este será secretário do trabalho de Kassab.

Esse texto valeria uma crítica mesmo se não tratasse de religião, de tão ruim que é. O título nada tem a ver com o conteúdo da matéria; o texto não chega a lugar nenhum; o final não é bem amarrado e o trabalho de Formiga como médium, além de ridicularizado, é mais evidenciado do que o fato de que ele será o vereador substituto (a matéria não era para isso?). Vale lembrar que esse mesmo jornalista foi um dos monitores da disciplina dada pela editora Abril em nosso departamento semestre passado.

O repórter começa descrevendo uma quinta-feira de Formiga, dizendo que ele psicografa mensagens do “Além” (ironia: lá onde a Dona Morte mora, sabe?). Diz ainda que o trabalho dele é contatar gente que partiu “desta para melhor” (ironia: que bateu as botas, esticou as canelas, sabe?). Quer um exemplo? “Há pais atrás de filhos, mulheres em busca de amantes falecidos…”. Em reuniões como essa, existem pais, filhos, irmãos, netos, sobrinhos e amigos que perderam pessoas queridas e buscam conforto. Por que Vilicic escolhe como exemplo justamente “mulheres em busca de amantes falecidos”? Para desacreditar a doutrina, o médium…?

Já na frase seguinte, o repórter ironiza o termo “desencarnado”. Sabe o que é isso, leitor? É um “jargão espírita para se referir aos finados” (ironia: defuntos, ou almas penadas!). No segundo parágrafo, Vilicic diz que “a linha direta com o outro lado da vida deve ficar congestionada” (mais ironias…) e explica que ele ocupará o lugar de um vereador de seu partido. Agora, às quintas-feiras, o trabalho de Formiga “será em outro tipo de sessão: a do plenário da Câmara Municipal (assim esperam os contribuintes)”. Ou seja, o jornalista duvida que o vereador vá aparecer em seu trabalho, mesmo sabendo – e, em seguida, escrevendo – que para ir às reuniões da Câmara às quintas, ele planeja transferir os encontros psicográficos para os domingos. A cobrança, portanto, foi gratuita e desnecessária.

Para encerrar, explica que o vereador pretende “incrementar o diálogo do poder público com as mais diversas religiões”, já que católicos e evangélicos também votaram nele. E assim, com o lead no pé da matéria, o repórter termina a mais preconceituosa matéria sobre religião que a Veja São Paulo foi capaz de fazer durante o período de minha tabulação. A única chance de haver um texto mais cruel sobre religião é se alguma pauta sobre evangélicos cair nas mãos de Filipe Vilicic**.

*Se a repórter tivesse escrito “auto-ajuste que pode levar a eternidade” sem crase, o sentido seria outro: o de quantificar o (longo) tempo que se leva para o auto-ajuste de contas. Ao usar a crase, no entanto, Martha aponta a eternidade como um fim que pode ser atingido com o auto-ajuste de contas.

**Esse comentário não é, de forma alguma, pejorativo em relação aos evangélicos. Quero dizer, com isso, que os evangélicos, mais do que os espíritas, são alvo de preconceito na imprensa brasileira.

Decifra-me ou te converto

•Dezembro 5, 2008 • 3 Comentários

por Rafa Benaque

É fim de tarde em São Paulo e os trens da CPTM começam a ficar cheios de trabalhadores que só querem voltar pra casa. Porém, até nos trilhos do trem o caminho pode trazer surpresas: ambulantes, pedintes ou, quem sabe, pregadores evangélicos. Sim, parecidos com aqueles que cobram o dízimo na televisão, homens e mulheres (2 mil, para ser exato) se dividem pelos trens de todas as linhas da cidade para levar a palavra de Jesus aos “fracassados”, como eles mesmos gostam de dizer.

No dia 6 de julho, na capa do caderno Metrópole, O Estado de S. Paulo colocou a seguinte manchete: “Cruzada contra pregadores de trem” e, abaixo dela, uma foto de um grupo desses evangélicos tentando falar dentro de um vagão superlotado. O texto, único da primeira página (o restante é uma propaganda), conta que essa prática já é tradicional nos vagões da CPTM, mesmo infringindo as regras da empresa uma vez que, segundo o artigo 40 do regulamento de transportes ferroviários, são proibidas “atividades que venham a perturbar os usuários”. A matéria se estende dentro do caderno, ocupando quase uma página toda (divide espaço apenas com outro anúncio publicitário).

Estranhei a maneira como a introdução na capa foi colocada pois, em se tratando de O Estado de S. Paulo, jornal católico até o talo, espera-se agressividade contra todas as ações delituosas dos evangélicos e, apesar disso, o texto se mostrou neutro. Mas, a grande surpresa veio mesmo no interior do caderno. A matéria principal (“No vagão cheio, gritos de consolo a ‘fracassados’”) é absolutamente condescendente com os pregadores, chegando até a passar a idéia de que eles prestam um serviço social. Essa permissividade fica evidente quando o jornalista afirma que o coral dos evangélicos (sim, eles também cantam nos trens) é “capaz de tirar o fôlego de quem nunca presenciou a cena” ou quando conta a história de Paulo Marques, que teria se tornado evangélico com a “ajuda dos pregadores, depois de ter chegado à lona, viciado em cachaça, vivendo três anos nas ruas da Praça da Sé”.

Uma curiosidade: um trecho afirma que Claudio Benedito Costa, pregador de trem, “fala principalmente para os fracassados, perdedores, depressivos, que lotam os assentos da CPTM a caminho de casa”. Todos esses termos – fortes e pejorativos – não vieram entre aspas, o que mostra uma opinião do jornalista. Além disso, é uma forma de dizer que os passageiros dos trens precisariam das palavras dos evangélicos. Gostaria de saber dos quase 2 milhões de passageiros diários da CPTM, quantos são a favor da pregação já que, em 2007, a empresa recebeu 137 reclamações esse respeito… No entanto, algo me fez ficar confuso: em meio a essa matéria elogiosa, o jornalista chama a cantoria dos evangélicos de “algazarra”, o que poderia deixar transparecer um juízo negativo. Além disso, se a pregação fosse católica, talvez ela viesse na seção Vida&, sob o chapéu religião e não no caderno Metrópole, de notícias mais populares e policiais.

Mas o que predomina mesmo é uma defesa dos pregadores de trem. A retranca “Assaltou, ficou em coma e se converteu” conta como Ricardo Almeida da Silva foi “salvo” pelos evangélicos da CPTM. Depois de ter traficado drogas, assaltado e quase ter sido morto por policiais, teria se convertido, segundo o texto, nas “idas e vindas com os pregadores no trem para Suzano”.

Mas, como já era de se esperar, o contra-ataque veio. No domingo, dia 17 de agosto, saiu no caderno Aliás uma matéria sobre a Linha Diamante dos trens de São Paulo. Em meio a histórias de vendedores ambulantes e drogados, o texto fala sobre os evangélicos que, desrespeitando a lei, pregam nos trens. Porém a passagem é bem curta e, apesar de sarcástica, não é lá muito agressiva.

Essas matérias foram bastante surpreendentes para mim, já que o Estado sempre bate nos evangélicos quando tem oportunidade ou quando cria uma (sempre me lembro da segunda parte da “Fábula do sapo e do tucano – Parte 2, publicada no Caderno 2 dia 8 de agosto, na qual Arnaldo Jabor faz uma metáfora com a política nacional e diz que, em meio a “baixa bicharada da floresta” estão os “vermes evangélicos”). Talvez seja uma tentativa de se aproximar da rival Folha; talvez uma distensão no relacionamento com os evangélicos. Não sei. Difícil decifrar esse enigma.