Carta ao leitor

•dezembro 5, 2008 • 3 Comentários

Por Unidos pela fé

A sabedoria popular nos ensina que há três assuntos que afetam a vida da sociedade cuja discussão é melhor evitar: política, religião e futebol. Tais temas costumam alterar os ânimos das pessoas e, quase sempre, causam brigas homéricas. Nesse tipo de debate todos se acham donos da verdade e ninguém abre mão de suas posições. Falar de algo que oferece consolo para alguns e não passa de instrumento de manipulação para outros é como pisar num terreno repleto de minas prontas para explodir.

Alguns debates, no entanto, têm um fim. As questões levantadas mexem com os sentimentos e valores de todos nós e, por isso mesmo, quase ninguém consegue fugir delas. O jornalismo, obviamente, não está imune ao fenômeno. E é por isso que nos reunimos neste blog para analisar a cobertura de temas religiosos nos veículos de comunicação impressa mais importantes do país, a saber: os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e a revista Veja.

Quatro meses após o surgimento do Unidos pela fé, 35 posts foram publicados e mais de três mil visualizações ocorreram. Desse trabalho, pudemos constatar que a imprensa brasileira é, muitas vezes, preconceituosa ao tratar de religião e que há muito a ser melhorado na cobertura desses assuntos.

Podemos resumir as hipóteses que nortearam nossas críticas ao longo deste semestre em dois pontos:

a) se há um tratamento privilegiado para o catolicismo, religião com maior número de seguidores no Brasil;

b) em que medida o discurso sobre as religiões e a religiosidade, publicados nos veículos estudados, embute e propaga, explícita ou implicitamente, alinhamentos favoráveis ou desfavoráveis a esta ou aquela confissão.

A partir disso, foi possível colocar em discussão as estratégias discursivas utilizadas pelos jornalistas brasileiros num contexto em que o país está mais religioso, como mostrou estudo divulgado em maio de 2007 pelo Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) sobre a economia das religiões1 a partir do processamento de micro-dados produzidos pelo IBGE (2000 a 2003).

O trabalho da FGV apontou que pela primeira vez em mais de um século a proporção de católicos no Brasil parou de cair, mantendo-se estável no primeiro quarto de década com 73,79% em 2003. Já os evangélicos continuaram crescendo, passando de 16,2% em 2000 para 17,9% em 2003.

A novidade é que os sem religião – que passaram de 7,4% para 5,1% – estão se tornando evangélicos.

Diante desse fenômeno, nós, do Unidos pela fé, tentamos a todo momento mapear os vieses presentes na cobertura de temas vinculados à religião.

Esperamos que o blog tenha contribuído para tal reflexão que pretendemos estender ao longo do ano de 2009. Abaixo, o leitor poderá encontrar uma síntese da experiência de cada blogueiro do Unidos pela fé.

Jornal O Globo

Por André Eler, o protestante calvinista neoliberal

O Globo é o carioca do grupo de veículos analisados – talvez pelo calor, pela falta da rigidez que há em São Paulo, ele me pareça o mais brasileiro de todos. Isso pode parecer irrelevante, mas se reflete na produção jornalística do jornal. Ele tem editorias que não fazem muita questão de distinguir os assuntos de política dos de cotidiano, tem colunas que misturam social, economia e política, tem um caderno de esportes que toca em todos os temas, um caderno de cultura eclético.

A religião se espalha sobre todas as páginas do Globo. Mas ela é citada entre um acidente de carro, uma festa de famosos, uma passeata pela paz, uma campanha eleitoral. O Globo não aborda o tema religião descolado do resto da vida pública. E, paradoxalmente, abomina que a religião exista como força política, que interfira nas diversas instâncias da vida pública. A religião é uma conquista dentre as liberdades individuais e deve permanecer nesse plano.

Ela serve como contexto, como anedota, como uma forma de humanizar a matéria. A religião do Globo está no cotidiano, ela é profana. Ela aceita o semelhante, sem levantar a tese de que algum ponto de vista esteja errado. A religião deve ser tolerante e tolerada. Banalizada, até. Mas a fé de ninguém pode ser tomada como verdade absoluta. Por isso mesmo, a fé de ninguém é contestada.

O Globo reforça alguns dos mesmos preconceitos dos demais veículos. Mas faz questão de reforçar mesmo o script de que o brasileiro é bom, múltiplo, vário, tolerante – quase carioca. E assim, nem ele, nem os políticos, e muito menos as religiões devem ser levados muito a sério. Isso não impede reflexões acerca de qual deve ser a posição do leitor. Muito pelo contrário: já que não dá para levar ninguém a sério, critiquemos tudo e cobremos uma postura de respeito com o que é público (e múltiplo, e vário).

Quem lê O Globo, não deve levar nem O Globo a sério. Afinal, ele é carioca.

Jornal Folha de S. Paulo

Por Eliseu Barreira Junior, o agnóstico que traz no peito a estrela de Davi

O maior jornal do País. Esse é o epíteto da Folha de S. Paulo. A publicação paulista, como todo mundo já deve estar cansado de saber, em seu “Manual de Redação” assinala como seu mais importante princípio editorial a defesa do pluralismo de idéias e opiniões. Por isso, todas as tendências ideológicas expressivas da sociedade devem estar presentes nas páginas do jornal. A busca pela apresentação da diversidade religiosa e a defesa da multiplicidade de cultos e credos são metas que a Folha deseja seguir.

Entretanto, ao longo do meu trabalho de crítico do jornal – uma espécie de ombudsman dos temas religiosos tratados nos últimos sete meses – pude constatar que esse paradigma nem sempre é verdadeiro. Há deficiências, principalmente, quando o assunto são os evangélicos – algo que acredito ser procedente da disputa judicial entre a Folha e a igreja Universal do Reino de Deus e da idéia difundida na sociedade brasileira de que eles são charlatões e só estão interessados no dízimo dos fiéis.

A atividade de criticar o trabalho dos outros não é fácil. Controlar nossos sentimentos ao analisar o texto de alguém e ser, ao mesmo tempo, objetivo é uma tarefa um pouco ingrata. Em muitos momentos, me questionava quem eu achava que era para falar mal do texto dos outros. Em virtude disso, tentei ao máximo trabalhar com referenciais teóricos para mostrar se os discursos que me propus a estudar eram bons ou ruins.

Espero que tenha desempenhado um bom papel enquanto crítico e que toda a experiência que obtive sirva de lição para quando eu estiver no lugar de quem eu critiquei. Assim, creio que poderei acertar mais e, portanto, errar muito menos do que os jornalistas com que me confrontei nos sete textos que escrevi neste semestre.

A análise do discurso é uma excelente ferramenta para quem pretende ser jornalista. Ela permite que os sentidos construídos por um texto sejam verificados e que este seja visto como um objeto de significação que se constrói na relação com os demais objetos culturais, pois está inserido em uma sociedade, em um dado momento histórico e é determinado por formações ideológicas específicas. Neste sentido, o jornalismo que tem a qualidade e o pluralismo como uma meta deve prestar mais atenção na importância desse tipo de estudo.

Um estudo que pretende contribuir para que as mensagens transmitidas pelos formadores de opinião não semeiem sentimentos e opiniões em campos tão controversos e polêmicos como o da religião.

Jornal O Estado de S. Paulo

Por Borbas, o ateu ‘graças a Deus’, e Rafael Benaque, o ateu ‘heavy metal’

Ter história é ótimo para a análise que o unidospelafe fez. O Estado de S. Paulo no decorrer de seus mais de 170 anos idos mostrou sua linha editorial: inicialmente, republicano e hoje conservador moralmente, liberal economicamente e católico. Se OESP tivesse um rosto, certamente seria baseado na genética dos Mesquita, que ainda traçam o grosso das características do jornal. E isso facilita muito o trabalho de análise do discurso.

Um jornal, quando se propõe a divulgar informações pelo filtro de determinada linha editorial, cria um globo de verdades – o jornalismo de modo geral tem a característica de gerar visões de mundo. E a visão de mundo gerada pelo Estadão passa por morais católicas.

É claro que, se um jornal traz um diário do Vaticano e tem como colunista fixo Dom Odilo Scherer, algo está implícito…ou talvez explícito!

OESP não fica, porém, recluso a sua fé; como um guerreiro nas Cruzadas, o jornal toma partido em criticar outras religiões, seja os freqüentadores da Barão de Sarzedas e dos vagões da CPTM, seja os moradores da Hezbollândia.

Jornalisticamente falando, é mais fácil para o leitor se deparar com um texto que é sabidamente parcial sobre determinados assuntos, uma vez que os exageros pulam aos olhos.

Resta ao unidospelafe esculhambar tudo.

1 A pesquisa completa está disponível em: http://www4.fgv.br/cps/simulador/site%5Freligioes2/. Acesso em 27.09.08.

Decifra-me ou te converto

•dezembro 5, 2008 • 3 Comentários

por Rafa Benaque

É fim de tarde em São Paulo e os trens da CPTM começam a ficar cheios de trabalhadores que só querem voltar pra casa. Porém, até nos trilhos do trem o caminho pode trazer surpresas: ambulantes, pedintes ou, quem sabe, pregadores evangélicos. Sim, parecidos com aqueles que cobram o dízimo na televisão, homens e mulheres (2 mil, para ser exato) se dividem pelos trens de todas as linhas da cidade para levar a palavra de Jesus aos “fracassados”, como eles mesmos gostam de dizer.

No dia 6 de julho, na capa do caderno Metrópole, O Estado de S. Paulo colocou a seguinte manchete: “Cruzada contra pregadores de trem” e, abaixo dela, uma foto de um grupo desses evangélicos tentando falar dentro de um vagão superlotado. O texto, único da primeira página (o restante é uma propaganda), conta que essa prática já é tradicional nos vagões da CPTM, mesmo infringindo as regras da empresa uma vez que, segundo o artigo 40 do regulamento de transportes ferroviários, são proibidas “atividades que venham a perturbar os usuários”. A matéria se estende dentro do caderno, ocupando quase uma página toda (divide espaço apenas com outro anúncio publicitário).

Estranhei a maneira como a introdução na capa foi colocada pois, em se tratando de O Estado de S. Paulo, jornal católico até o talo, espera-se agressividade contra todas as ações delituosas dos evangélicos e, apesar disso, o texto se mostrou neutro. Mas, a grande surpresa veio mesmo no interior do caderno. A matéria principal (“No vagão cheio, gritos de consolo a ‘fracassados’”) é absolutamente condescendente com os pregadores, chegando até a passar a idéia de que eles prestam um serviço social. Essa permissividade fica evidente quando o jornalista afirma que o coral dos evangélicos (sim, eles também cantam nos trens) é “capaz de tirar o fôlego de quem nunca presenciou a cena” ou quando conta a história de Paulo Marques, que teria se tornado evangélico com a “ajuda dos pregadores, depois de ter chegado à lona, viciado em cachaça, vivendo três anos nas ruas da Praça da Sé”.

Uma curiosidade: um trecho afirma que Claudio Benedito Costa, pregador de trem, “fala principalmente para os fracassados, perdedores, depressivos, que lotam os assentos da CPTM a caminho de casa”. Todos esses termos – fortes e pejorativos – não vieram entre aspas, o que mostra uma opinião do jornalista. Além disso, é uma forma de dizer que os passageiros dos trens precisariam das palavras dos evangélicos. Gostaria de saber dos quase 2 milhões de passageiros diários da CPTM, quantos são a favor da pregação já que, em 2007, a empresa recebeu 137 reclamações esse respeito… No entanto, algo me fez ficar confuso: em meio a essa matéria elogiosa, o jornalista chama a cantoria dos evangélicos de “algazarra”, o que poderia deixar transparecer um juízo negativo. Além disso, se a pregação fosse católica, talvez ela viesse na seção Vida&, sob o chapéu religião e não no caderno Metrópole, de notícias mais populares e policiais.

Mas o que predomina mesmo é uma defesa dos pregadores de trem. A retranca “Assaltou, ficou em coma e se converteu” conta como Ricardo Almeida da Silva foi “salvo” pelos evangélicos da CPTM. Depois de ter traficado drogas, assaltado e quase ter sido morto por policiais, teria se convertido, segundo o texto, nas “idas e vindas com os pregadores no trem para Suzano”.

Mas, como já era de se esperar, o contra-ataque veio. No domingo, dia 17 de agosto, saiu no caderno Aliás uma matéria sobre a Linha Diamante dos trens de São Paulo. Em meio a histórias de vendedores ambulantes e drogados, o texto fala sobre os evangélicos que, desrespeitando a lei, pregam nos trens. Porém a passagem é bem curta e, apesar de sarcástica, não é lá muito agressiva.

Essas matérias foram bastante surpreendentes para mim, já que o Estado sempre bate nos evangélicos quando tem oportunidade ou quando cria uma (sempre me lembro da segunda parte da “Fábula do sapo e do tucano – Parte 2, publicada no Caderno 2 dia 8 de agosto, na qual Arnaldo Jabor faz uma metáfora com a política nacional e diz que, em meio a “baixa bicharada da floresta” estão os “vermes evangélicos”). Talvez seja uma tentativa de se aproximar da rival Folha; talvez uma distensão no relacionamento com os evangélicos. Não sei. Difícil decifrar esse enigma.

Um judeu pós-moderno

•dezembro 5, 2008 • 3 Comentários

Mr. Catra

Por Eliseu Barreira Junior

Esta é a minha última coluna do ano no blog Unidos pela fé. Após seis críticas com pauta fixa, decidimos que cada um escolheria sobre o que escrever. E eu convido você a embarcar comigo no bonde do Mr. Catra. É isso mesmo que vocês leram. O Eliseu – aquele cara sério, segundo Carla Peralva – vai falar do funkeiro que depois de arrastar multidões no Rio de Janeiro, está invadindo a capital paulista com um som que mescla religião, sexo e cujas apresentações contam com o bumbum da Mulher Filé.


 

Pra falar a verdade, eu não sou muito fã de funk. Mas após ler a matéria “Pregações de um funkeiro”, publicada na Revista da Folha recentemente, me arrisco a dizer que a música de Catra tem seu valor. Se você não sabia como eu, o funk é um ritmo que se originou do soul norte-americano e que desembarcou no Rio de Janeiro na década de 1980. Ele foi tocado inicialmente nos bailes que ocorriam na Zona Sul da cidade e, só em seguida, chegou às áreas periféricas, onde surgiu o popular funk carioca[1].

 

 

Mr. Catra não é um funkeiro qualquer. Como define a repórter da Folha Nathalia Lavigne, “ele mistura religião e pornografia com a mesma naturalidade com que defende a poligamia e inventa uma corrente do judaísmo”. A tal corrente de que Nathalia fala é o “judaísmo salomônico”.

 

Um “judeu salomônico”, nas palavras de Catra, é que aquele que segue os princípios do rei Salomão – “conhecido por suas 700 mulheres e 300 concubinas”.

 

 

A reportagem da revista apresenta ao leitor Catra tomando como ponto de partida os preceitos, digamos, tradicionais do judaísmo. Tanto é que traz a opinião do rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista, para contestar seu pós-modernismo.

 

 

As performances de Catra, como mostra Mylene Mizrahi[2], doutoranda em sociologia e antropologia da UFRJ, que acompanha o cantor desde 2007 nas longas noites dos seus shows – é isso mesmo, o cara é tão pós que até a academia se interessou por ele – são estruturadas e marcadas pela convivência da religiosidade, sexualidade e ilegalidade. O MC abre suas apresentações entoando o refrão de louvor “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Depois, é executado o seguinte trecho da canção “Minha facção”:

 

 

Minha facção

é o bonde de Deus

já fui ladrão

e conheço o breu

se liga rapaziada

essa é que é a parada

Catra, o fiel

sinistro da Baixada

Catra, o fiel

sinistro da Baixada

Catra, o fiel

maluco pode crê

minha facção

fortalece você

só não vale corrê

vem representá

se ajoelhou

mano, vai ter que orá

Humilde e sinistro

representação

a minha facção

fortalece você

eu estô ligeiro

sempre atento e esperto

se ajoelhar

tem que fechar com o certo

 

 

Mylene afirma que após “Minha facção”, Catra se dirige ao DJ e, “em tom simultaneamente solene e jocoso” fala: “DJ Edgar, por favor, que soem as trombetas da putaria!”. “Um som de trombetas invade o espaço, acompanhado do que seria o ruído do galopar de cavalos. O MC, usando a potência de sua voz, anuncia: ‘Vai começar a putaria!’. Mr. Catra executa então diversas canções eróticas, que costumeiramente falam das benesses do sexo oral ou da troca sexual com várias e simultâneas mulheres”[3].

 

 

Nathalia, no entanto, diz em sua matéria que “O Senhor é Meu Pastor e Nada me Faltará” é um “louvor católico”, atitude que parece ter sido influenciada por um Meme dos tempos em que ainda fazia a primeira comunhão. Tal louvor é dos cristãos em geral. Ela ainda dá mais uma escorregada: “assistir a um show de Mr. Catra é como ir de um culto evangélico às casas de banho, onde também costuma cantar, em apenas meia hora”. Com essa frase, fica claro que para a repórter da Folha, cultos evangélicos e casas de banho estão na mesma linha. Aí, há uma gradação um tanto absurda e falaciosa.

 

 

Ao falar da Mulher Filé e da “Dança do Pisca”, “música que Catra compôs para a nova musa do funk carioca que ‘pisca’ o bumbum”, o texto nos apresenta a “Sagrada Família” do funkeiro por meio de uma fala da dançarina “criada pelo MC para concorrer com a Mulher Melancia, do Créu”: “O Catra nunca precisou de dançarina, é uma oportunidade que ele está me dando. Ele ajuda muito o pessoal da comunidade. Chama os funkeiros mais próximos de ‘Sagrada Família’ e sempre os convida para cantar com ele”, diz. Aqui, Catra é elevado a um patamar superior pela sua generosidade.

 

 

A partir deste trecho conhecemos o histórico do menino que, nascido na Tijuca, teve “uma infância mais parecida com os garotos de classe média da região do que com a dos que vivem no morro do Borel, onde sua mãe morava”. Criado na casa onde ela trabalhava como doméstica, Catra estudou em um colégio tradicional do Rio e, em seguida, veio a se tornar “um dos caras que mais representa o funk do morro”, nas palavras de Marcelo D2, ouvido pela reportagem.

 

 

Assim, depois de mostrar que o show de Catra vai do louvor “O Senhor é Meu Pastor e Nada me Faltará”, ao “hino da putaria”, “sem esquecer de exaltar ‘o bonde dos maconheiros’”, Nathalia apresenta ao leitor o MC que é generoso, nascido no morro e que é elogiado por outros companheiros da música.

 

 

Até que ela entra na polêmica da religião seguida pelo funkeiro. Diz que “a relação de Catra com a religião não dura apenas os dez primeiros minutos de seu show”, mas afirma que “não dá para distinguir o que é prático do que não passa de um discurso”.

 

 

Para aumentar a dúvida sobre o comportamento do MC, conta que ele se converteu ao judaísmo depois de visitar o Muro das Lamentações, mas que, “naquela mesma noite de sábado, sétimo dia do Pessach, parecia ignorar os preceitos da Páscoa judaica”. Para Nathalia, há um modelo ideal de judeu e, portanto, o que foge ao padrão deve ser questionado. A comparação seria válida, desde que não significasse a negação dos próprios objetivos do perfil do funkeiro que ela está apresentando. O que chama a atenção em Catra é o fato de ser pós-moderno, de fazer uma salada de música e sexo temperada com religião – tanto é que ele virou alvo de um trabalho acadêmico. Por isso, questionar o jeito de ser do MC, é colocar em dúvida os próprios motivos que levaram a revista a dedicar três páginas para ele. Se Nathalia vê no músico uma farsa, a matéria não tem razão de existir, certo?

 

 

Com essa postura, ela demonstra não entender que o que faz Wagner Domingues da Costa ser o Mr. Catra e, portanto, alvo de interesse jornalístico, é a contradição que o move. As concepções que norteiam o trabalho da jornalista fazem com que ela tente encaixar Catra em idéias pré-estabelecidas, buscando desconstruir suas ações contraditórias. A contradição é o motivo dele estar na revista, não o contrário. A história perde a graça com a desconstrução.

 

 

O mais curioso em Catra não é o fato de “não freqüentar sinagogas, de ignorar os preceitos do Pessach, de nunca deixar de trabalhar no dia sagrado da religião judaica, que começa no pôr-do-sol da sexta-feira e vai até o anoitecer do sábado”. O que chama nossa atenção é o fato de se dizer um judeu e ter convicções estritamente individuais, como se classificar “judeu salomônico”. Ponto-final. Assim, não interessa ao leitor um rabino dizer que não tem conhecimento da existência de uma corrente judaica salomônica. Todo mundo percebe isso. O que interessa, verdadeiramente, é saber que há um funkeiro de um morro carioca que tem um fascínio por um rei, que por causa dele defende a poligamia, proibida no judaísmo, e que cria uma corrente própria da religião que permita ter várias mulheres.

 

 

Nathalia encerra seu texto escrevendo que “Catra parece se guiar por outra passagem bíblica que está no livro dos Gênesis: ‘Crescei e multiplicai-vos’”, pois diz ser pai de 15 filhos com sete mulheres, vive com sete deles e o 16º está a caminho. É nesse fechamento que está o principal da história e que a repórter da Folha tentou questionar: o fato do funkeiro ser uma exceção à regra. Ela faz questão de chamar as teorias de Catra de “absurdas”, mas esquece que foi justamente o absurdo que a levou até ele.

 

 

De acordo com Mylene Mizrahi, que é judia e que também foi ouvida por Nathalia, “tudo que ele fala sobre isso [judaísmo] tem sentido e é sério do ponto de vista dele. É por esse discurso que ele chama atenção de seu público para a injustiça social. É um posicionamento político”. A repórter parece não ter dado conta disso. Ela estava mais preocupada com o judaísmo tradicional, com o judeu que segue os preceitos corretamente. Fortemente influenciada pelo script judaico, chega a escrever: “resta saber como vai reagir a comunidade judaica de Higienópolis à combinação deste discurso aos atributos da Mulher Filé”. Não são os rituais que fazem Catra se interessar pelo judaísmo e se dizer judeu. Ele vê na religião um outro sentido ignorado pela repórter e que ela não soube explorar.

 

 

“A sua adesão ao Judaísmo possui, segundo ele, fundamento espiritual, místico e simultaneamente político. Pois foi o que sentiu lá junto com a decepção que experimentou ao chegar de volta ao seu país que o modificou. (…) Afirma que a sua religião é a de um “povo que passou por vários holocaustos” e que aqui no Rio de Janeiro acontecem holocaustos diários.

 

(…) A leitura de Mr. Catra surge marcada por uma interpretação que encontra explicação na própria cosmologia associada a uma religião não-ocidental, distinta da católica, que viabilizaria um respeito pelo outro, diferente do que pode ser por ele experienciado no Rio de Janeiro. É a distância do Ocidente que, aos seus olhos, permite ao judeu uma visão de mundo distinta. Pois mesmo passando pela Europa, foi em Israel que encontrou um novo mundo, sem as opressoras hierarquias que guiam as pessoalizadas relações sociais estabelecidas em seu mundo de origem”, explica Mylene em seu trabalho[4].

 

 

Para que possamos entender Mr. Catra, encerro esta crítica com a letra da música que ele compôs com MC Sapinho, brasileiro e judeu, que vive em Israel[5]. Quem sabe agora, fique mais claro por que ele não é um judeu comum:

 

 

Atem tzrichim leavin

Tzarich latet kavod

Bishvil lekabel kavod

 

Daber she zé anachnu

Baruch atah adonay

Eloym achi chashuv

Ichié baruch Yerushalaim[6]

 

Na minha casa

O mal não vai entrar

Tem a Bíblia e o Alcorão

E na porta Mezuzá

 

E a Torá baruch atá

Baruch atá adonai

Quem tá puro entra

Quem tá mandado sai

 

Yoshua Je t’aime

Faith in god, iluminations

make a peace, make love

with a positive vibration

 

Com Deus no coração

Salam

Salam alekon

Salam alekon shalom[7]

 

Hoje eu fui foi lá no muro

Conversar com o rabino

Quando de repente ouvi

O bonde dos palestino

 

Meti a mão na estrada

Fui conferí qual é

O bonde mais sinistro

É Jerusa e Nazaré

 

Jerusalém

A melhor noite que tem

(repete)

 

Rebolando com as mina

Começaram a se esfregar

Chegaram perto de mim

Me pedindo neshiká

 

Id chamudá

Bitch neshiká

(repete)

 

Haifa, Tel-Avi, Guivataim, Ashdod

Acco, Nazaré, Gaza só para quem pode

Natania, Hedera, Massada, só disciplina

Das colinas do Golan à fronteira palestina

 

Eloym vem conduzindo

A caneta e o papel

Moshé abriu o Mar Vermelho

Com a força linda do céu

 

Da terra irá brotar

Vida, leite e mel

Mr Catra de Golan

E Sapinho de Israel

 

Vocês precisam entender

Pra ter respeito

É preciso respeitar

 

Fala que é nóis

Santificado seja o Senhor

Deus é o mais importante19

Haverá paz em Jerusalém

 

 

Shalom. E até 2009.


[1] Mizrahi, Milene. O senso estético funk: uma usina de imagens. http://201.48.149.88/abant/arquivos/9_5_2008_10_49_49.pdf
[2] Mizrahi, Milene. Funk, religião e ironia no mundo de Mr.Catra. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-85872007000200006&script=sci_arttext
[3] Idem 2.
[4] Ibidem 3.
[5] Ibidem 4.

[6] Nos dois primeiros parágrafos, transliterados do hebraico, são feitos louvores a Deus e repetidas palavras de ordem da favela.

[7] No sexto parágrafo, cujos versos foram igualmente transliterados, pede-se paz em árabe e hebraico.

 
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